SONETO MARÍTIMO, de Thiago Batalha
Eis o primeiro artigo-orientação de um poema de um assinante, espero que seja de muita ajuda!
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Vamos ao poema?
SONETO MARÍTIMO, de Thiago Batalha Vou à praia, me achego ao mar, contemplo as ondas: vão, voltam, vão-se — não é vão esse vão andar sem rumo...(eu vago pelas longas vias deste mundo, digo, ilha-cão). Sou o mar: vou e volto, creio e descreio; às tontas meu corpo — d’água feito (e de mais...) — , tão à toa, segue os ventos sem delongas. Reflito mais: o mar, espelho-chão, reflete-me: eu a ele, ele a mim; no mar habitam seres vários, como aqueles que me lembram mais de mim: siri, me movo mais de lado, anômalo; pinguim, me movo torto, e mais: não voo. Adentro o mar afora, enfim — não morro.
AVISO: Por se tratar do primeiro poema enviado pelo autor, considerarei críticas, análises e sugestões como secundárias em relação ao corpo de orientações e ao guia. Não se trata de pegar leve com o autor, mas, antes, de deixá-lo — assim como todos os outros de primeira viagem — confortável com o estilo do A Arte do Verso, no qual priorizamos fortemente a formação de base, o modo de pensar do poeta, e a disposição psicológica da composição. Outros poemas virão, e subiremos a régua progressivamente.
Primeira impressão
O poema abre com uma cena simples e concreta, o ato de ir à praia, achegar-se ao mar, que se vai rapidamente dobrando em reflexão, expressa pelo verbo “contemplar”, que nos prepara para um salto do sensorial ao filosófico.
O primeiro jogo de sentidos é expresso na primeira estrofe pelo polissêmico “vão”. É usado como movimento e pode ser lido como vazio, espaço, passagem, inutilidade da coisa vã. É possível ver, em “não é vão esse vão”, o gesto de defesa do errar, do andar sem rumo, que nunca é inútil, tem sempre um quê de descoberta. O parêntese reforça isso: o eu não apenas observa o mar, mas se identifica com a errância, “eu vago”.
A imagem final “ilha-cão” é especialmente potente, porque se afasta, ou anuncia, um campo metafórico ainda não apresentado. É a ilha como isolamento e separação, e o cão como fidelidade, companhia. O recurso poético criado ao fundir os dois termos pelo hífen permite uma identidade híbrida, porque marginal, e híbrida porque selvagem dentro da proposta. Tanto a ilha, enquanto ideia, quanto o cão são elementos apropriados e domesticados socialmente pelos homens.
A estrofe seguinte, lidando com as primeiras dicotomias suavemente estabelecidas, opera um salto ontológico maior: “Sou o mar”. Já não temos observador e objeto, mas uma fusão entre ambos. O paralelismo “vou e volto, creio e descreio” aproxima o movimento físico da instabilidade dos afetos. Crer e descrer, então, assemelha-se ao ir e vir das ondas. É, como já notado desde a primeira palavra, um poema muito forte em ritmo interno.
Há certa quantidade de significados também na ideia do corpo “d’água feito (e de mais…)”, que sugere excesso, porosidade e falta de contornos rígidos. O tom confessional e quase irônico dos parênteses funciona como se o eu admitisse sua própria indefinição excessiva. É expressivamente contrastado em “segue os ventos”, porque a heteronomia do eu lírico assume que não é, apesar de tudo, o motor de todos esses movimentos, mas a matéria em deslocamento.
A imagem “espelho-chão” fala por si só. Belíssima. O mar não é espelho vertical, narcísico, mas horizontal, onde se pisa, onde se afunda. É um detalhe simples que agrega muito pela ordem em que foi apresentado. A simetria sintática, “eu a ele, ele a mim”, encena o espelhamento recíproco. Não é só o eu que se projeta no mar: o mar devolve algo transformado.
É interessante notar que estamos no primeiro terceto e, portanto, na virada das premissas maiores e menores para as conclusões. O campo de consciência é expandido: havia o eu, o mar, o eu que é mar e o mar no eu e, então, subitamente, um deslocamento decisivo, porque vemos a chamada aos “seres vários”. O reconhecimento do eu não se dá no humano ideal, mas no anômalo, no lateral, no torto, nos excessos e no outro.
Entramos na estrofe final, e os seres vários se desdobram em um ecossistema, o ponto mais forte do poema, em que o eu se reconhece em animais impróprios ao ideal de avanço e ascensão: siri, pinguim. São simbolizantes de uma existência desalinhada à norma, e por vários motivos. Mas são, também, ao seu modo, perfeitamente funcionais em seu próprio meio. Essa ideia de identidade, expressa desde o começo, não se constrói pela potência pura e simples, mas pela adaptação ao limite.
O verso final é extraordinariamente contido: “Adentro o mar afora, enfim, não morro.” Poder-se-ia objetar que é um final sem triunfo ou transcendência. Há apenas sobrevivência e uma suspensão criada pela vírgula, de forma dramática e até frustrada, um anticlímax, se preferirem, algo na ordem de “não morrer já é suficiente”. Prefiro ver de forma extremamente positiva: todas as mudanças que parecem nos roubar a potência, porque nos formalizam no ato, não terminam por nos extinguir, mas por nos dar mais e mais forma, uma robustez segura de ser o que se é e, sendo, afirmar-se.
Impressão crítica dos dispositivos poéticos, da forma e da técnica



