SABARÁ, de Gabriel Negreiros
Um poema de brasilidades...
Gabriel Negreiros é aluno do meu grupo de poetas do A Arte do Verso. Já é um baita poeta brasileiro, e um verdadeiramente de nossa terra:
SABARÁ
uma fruta
negra escura reluzente
qual turmalina que brota da braúna
árvore caule planta semente
do seu couro, da sua casca
cheiro sabor doce floral
de mulher baunilha
guaraná pupila
essas Aves em cânticos de amor
matrimônio da fruta co'a madeira
guarda Negras Beatas Reis de cor
Botânica Basílica Mineira
Saravá Saravá Sabará
deleito do Sábio, Jóia de Sabbath
no negrume do teu peito
nas tardes de suas ancas
seu sumo aroma e leito
desejo,
mas inda não é madura suas tabancas
Ave Divina, zelante
Fazei desses cachinhos sua morada
ilumina rege e guarda
e levai esta prece de um amante
"Pássaro por favor
d'arvore cuide a flor
que dela sai doce fruta
Negra - de bom sabor"Se eu puder trazer uma espécie de sinopse deste poema, com algumas palavras, seria algo como a transformação da matéria em relíquia simbólica. É um pequeno altar verbal de ébano, resina, barro e ourivesaria.
Pela via do excesso, vemos o acerto expressivo que percorre todo o poema: negra-escura-reluzente — é o negrume mineral, peça a ser transmutada num ato lírico e litúrgico. A comparação com “turmalina” e “braúna” dá peso físico à cor. Negro de matéria dura, vegetal e geológica. Densidade imaginária que erotiza pela botânica. Difícil de fazer. Soaríamos pseudo-simbolistas ou perfumaria de Instagram se tentássemos. Mas aqui funciona porque o erotismo é evocado do tato e do cheiro, “do seu couro, da sua casca / cheiro sabor doce floral”. “Couro” e “casca” impedem que o poema flutue demais. Quando o símbolo, substrato aterrado ao solo, ameaça demais querer virar abstração, é na palavra áspera e material, quase grosseira, que recuperamos o terroir.
“de mulher baunilha / guaraná pupila”
Bonitas também essas justaposições que passam ao largo dessas mediações lógicas, logopéicas do poema. Fazê-los colidir é parte importante da grandeza técnica deste poema. Parecem nascidos antes da sintaxe, os elementos. Tem coisa de canto popular, de ladainha afro-católica, de fórmula oral. Frequentemente o autor (que é meu aluno) escreve melhor quando a imagem desponta antes da racionalidade. Pensa bem porque pensa em imagens, e não está preocupado em esperar que elas narrem algo, antes de escrevê-las.
A segunda estrofe é talvez a mais forte do poema:
essas Aves em cânticos de amor
matrimônio da fruta co’a madeira
guarda Negras Beatas Reis de cor
Botânica Basílica Mineira
Dicção quase heráldica. Parece inscrição barroca entalhada em igreja. O verso “Botânica Basílica Mineira” é sublime ao condensar precisamente o eixo do poema: vegetal + sagrado + Minas. Três palavras e o universo inteiro se organiza. Fora a capitalização iconográfica das maiúsculas. “Negras Beatas Reis de cor” vão comungando em procissão de pintura colonial. Sem ênfases semânticas, que costumam nos cansar no português. É folha de ouro num retábulo, e que nos catequiza porque é imagem, é imagem.
Mas como nem tudo é consagração, o poema perde um pouco da tensão porque a música fica mais forte que a necessidade da imagem.
Por exemplo:
deleito do Sábio, Jóia de Sabbath
“Jóia de Sabbath” soa mais procurado do que descoberto. É um raro momento em que percebo o poeta querendo soar solene, em vez da solenidade emergir naturalmente da imagem. O mesmo vale um pouco para “Saravá Saravá Sabará”: a sonoridade é bonita, mas quase boa demais, muito consciente do próprio efeito. É preciso lembrar que, em termos de qualidade, estou reclamando de que este 99% ainda não é 100%.
Já:
mas inda não é madura suas tabancas
Concede o privilégio de voltar a soar estranho. Tabancas desloca tudo. Palavra de densidade cultural inesperada. Impossível prever também. Palavra de densidade cultural inesperada que obriga o leitor a reorganizar o campo simbólico inteiro do poema.
Entra em cantiga, este fim, inteligente porque abandona o excesso ornamental:
“Pássaro por favor
d’arvore cuide a flor”
O autor deixa tudo melhor quando se aproxima da oração popular e da fala humilde, do canto simples e das pessoas comuns. É atrito do exuberante com o popular, traz aquilo que é, nele, idioleto. Poema com cheiro: couro, madeira úmida, fruta madura, resina, perfume floral quente. Se cuide, senão Morillas rouba teu poema. Um perfumista que ficaria louco no continente.
Mas, mais uma vez, há um risco subjacente, nascido desse enamoramento da própria capacidade de nomear coisas belas. Ameaça virar relicário de catálogos exóticos. Nada agressivo, por enquanto. O poema não deve parecer literário, deve ser inevitável. Esperamos os próximos, Gabriel.
Brian Belancieri.




