Por que transformamos a leitura em fetiche?
E onde fica a nossa responsabilidade com o que fizeram de nós?
Introdução
O ano era 2018, ou 2019, e o Instagram começava a aquecer seus algoritmos para transformar-se em uma máquina de engenharia social. Olavo de Carvalho estava no auge, uma eleição já se dava como ganha, Ítalo Marsili & Companhia seguiam aquecendo o mercado de desenvolvimento pessoal focado numa cruzada contra o declínio do Ocidente. A rede Globo fora superada pelo smartphone.
Nós, gente como eu e você, que paga boletos e gosta de ler uns livros, aprendíamos que, de algum modo, não havíamos aprendido da forma correta. Aprendido o quê? Não sabíamos, mas era algo sobre nossa consciência, memória, visão crítica, cultura e, quem sabe, visão de mundo. Sabíamos pouco.
O que sabíamos parecia bastar. O Ateneu era um porre, e a lista de vestibular, descartável em quase sua totalidade. Não era um problema pra gente. Líamos, mesmo assim. Game of Thrones e Harry Potter formaram a geração de 90; Jogos Vorazes e Crepúsculo, a de 2000. Eram livros, afinal.
Poesia? Ora, Drummond, Cecília, João Cabral e Gullar sempre foram nossos melhores, e desde o ensino médio nunca faltaram. As aulas e os livros didáticos do governo traziam, afinal, muitos poemas destes grandes poetas. E elogiávamos Machado de Assis, mas a maioria não leu nada dele e, se leu, não passou de Dom Casmurro.
Você, leitor, en passant — lá pra 2020, preso em casa pela pandemia — rola um story que diz que sua leitura não é boa e que você não compreende o mundo porque lhe falta educar o imaginário. Você não sabe o que é isso.
Nunca te fez falta.
Mas algo lhe diz que precisará aprender, pois é justamente essa habilidade que separa você de algo que você sente ser parte integrante da essência de ser humano — e, mais que isso, de ser o melhor humano entre os humanos.
Você quer isso, não? Eu quero. Quem não quer?
Instruções para criar uma falta
Mas havia um problema nisso tudo: você precisava colocar a mão no bolso pra aprender. Quer dizer, nada contra. Nossa escola é financiada por impostos; só não sentimos o peso porque não pagamos diretamente. E, segundo Aristóteles, é natural ao humano querer conhecer. Só não estávamos acostumados com os custos.
Aos poucos você continua rolando a tela, e percebe que essa relação é diferente das demais: ela depende da construção de uma estrutura psicológica nova no seu psiquismo. Essa estrutura é como um furo na sua autoestima: ao mesmo tempo que mexe com seu ego, mostrando alguma falta, oferece o curativo para ela, sob a forma de um orgulho, de uma seleção. Essa, naturalmente, é a vida intelectual.
Conforme esse desequilíbrio dinâmico crescia, ele se compartimentalizava, pois sobrevive de momentum. A gente vai se tocando e quer acordar, mas a próxima onda surge e nos submerge novamente no mecanismo. Umas vagas pra cá, outras pra lá, e não há tempo para nadar pra algum lugar seguro.
É como abrir veios e reservatórios na geografia de uma planície: a água vem, ocupa, e logo precisamos abrir mais veios e mais comportas, porque as primeiras já estão cheias. Não preciso explicar a metáfora: essa é a lógica de mercado e de saturação de produto. Ela se ramifica e ocupa todas as possibilidades.
As possibilidades vocês viram: a educação do imaginário ocupou todos os espaços. Vocês se sentiram mal de todas as formas possíveis. E então passaram a suprir esse mal-estar com…
Eu vou contar pra vocês, mas quero que respirem fundo. A gente não espera ouvir isso em nossa cara; nós não estamos acostumados a levar isso no peito assim, eu sei…
Com narcisismo. Talvez vocês não percebam com clareza, mas eu preciso informar — me desculpem, mais uma vez. Vocês construíram uma estrutura narcisista em cima de vocês para suportarem a angústia de serem menos. Em vossa defesa, é verdade, essa imagem narcisista fora também dada. Cedida, se preferirem.
Como assim?
Vocês foram postos para se sentirem mal, para se sentirem menos. E, então, para suprirem isso, criaram uma imagem da qual — se vocês fossem ou simulassem o suficiente — pudessem extrair alguma estima.
Essa imagem é a do intelectual conservador. Quando falo de conservadores, não estou me referindo ao campo político, mas de um tipo simbólico. É a imagem daquele que faz do jeito certo. Que lê os livros que ninguém lê. Que preserva algo, no seu melhor, mas que reclama de tudo que é novo, no seu pior. Vou falar no mesmo tom dos marqueteiros:
“Que lê 80 livros por ano”
“Que decora poemas para ser mais inteligente”
“Que não se rende ao péssimo ambiente das universidades brasileiras”
“Que faz uma lista de leitura”
“Que pretende criar uma curadoria de cultura”
Mas que entra em pânico quando se vê diante de um poema assim:
AS armas e os Barões assinalados Que da Ocidental praia Lusitana Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; E também as memórias gloriosas Daqueles Reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando, E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da Morte libertando, Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
(E paga os próprios rins para ouvir o sr. Influencer discorrer sobre como Os Lusíadas são a prova definitiva que separa os meninos dos homens, e que só pessoas alfabetizadas acham o sujeito da oração labiríntica que se esconde entre 16 versos, e pipipi e popopó, no maior gaslighting ocidental já criado dentro da literatura — porque você, leitor, no fim das contas, não acha bonito o que lê, mas precisa fingir ao máximo que acha: quer fazer parte do grupo de eruditos.)
Estranho. Você não tem a sensação, leitor, de que sempre sai com menos — mesmo quando investe mais e mais de você?
Pois é.
O mercado de identidades
Mas, vejam vocês, tudo já estava devidamente explicado em Hugo de São Vitor, lá pelo ano 1100:
“muita gente se engana exatamente nisso, querer parecer inteligente antes de realmente ser. Daí nasce uma postura inflada, quase performática, em que a pessoa passa a fingir o que não é e a ter vergonha do que de fato é. Com isso, quanto mais se preocupa em parecer sábia, mais se afasta da sabedoria — porque passa a achar que o importante não é ser, mas ser visto como tal.”
O que faltava, na verdade, era quem soubesse manipular esse mecanismo. E a classe de pessoas responsável por manipulá-lo apareceu: o déficit subjetivo fora produzido, e a identidade compensatória fora vendida dentro da oferta mercadológica da falta. Semearam, colheram. E abandonaram os verdes campos, agora devastados. Sobraram as ruínas de uma estrutura narcísica defensiva.
E eu, leitor, não falo de um lugar diferente de vocês. Estive lá também, vi tudo isso; também já gastei meu décimo terceiro em recomendações de livros dos quais não consegui passar da primeira página. Meu Subsidiários e Cascalhos, de Herberto Sales, foram os melhores pesos de porta que já tive. A meu ver, impossíveis de se ler. Querem imaginar o que ouvi quando comentei publicamente minha opinião? É.
Eu também tive pequenas crises de ansiedade pensando que o Ocidente acabaria, que eu era burro, que nunca seria capaz de escrever um bom poema ou que era um analfabeto funcional incurável.
O custo interno dessa identidade imputada é, para todos os efeitos, uma espécie de sofrimento que tende a se perpetuar, assim como o crescimento de um vazio estrutural que não se resolve. É como uma bexiga: não adianta soprar mais para compensar; ela continuará crescendo. É preciso se posicionar fora dessa armadilha que os caçadores deixaram — ou esqueceram — no campo. É preciso esvaziar esse vazio que nunca se preenche. Nossa responsabilidade é parar de soprar junto de quem nos quer causar o incêndio, só para nos vender o extintor em seguida.
Ou vocês sempre serão, para todo o sempre, os peixinhos criados em cativeiro para alimentar tubarões.
Resumo da ópera
A leitura se transforma em fetiche quando deixa de ser um encontro e passa a funcionar como insígnia. O livro já não importa pelo que faz ao leitor, mas pelo que o leitor pode fazer com ele diante dos outros. O mercado entende isso muito bem: primeiro produz a sensação de falta, depois oferece objetos simbólicos capazes de tamponá-la.
O narcisismo entra como cola dessa engrenagem — não necessariamente como vaidade gratuita (embora haja muita), mas como defesa. Assim, a leitura deixa de ser experiência, risco e transformação (deleite, vai, não sejamos tão austeros) e passa a ser prova, distinção e abrigo identitário.
Querem exemplo maior do que a exibição do tamanho da biblioteca? É sempre algo performático, colorido, uma mariposa lunar no meio da sala. Não se lê para ser afetado, mas para sustentar uma imagem. E, onde a imagem se torna um fim em si mesma, bem, a leitura nem começa: é desnecessária. Um resumo basta.
Se querem tirar a prova, saiam perguntando sobre Dostoiévski e notem que as edições são bonitas, mas nenhuma delas saiu do plástico, a despeito de os donos entenderem tudo sobre a importância do autor.
Está tudo compreendido até aqui?
Então, só posso concluir com um pequeno mantra, guardem no peito:
Quem ama a literatura não precisa dela como troféu. Nem como identidade.
É isso, dispensados por hoje.
Brian Belancieri.




Uma chuva de verdades. Eu, bem mais novo, cai numa dessas e comprei os Irmãos Kamarazov em uma edição belíssima, carríssima, mas que eu fui ler muito tempo depois (6 ou 7). Não é que fosse impossível ler: eu não tinha o mínimo necessário para extrair o melhor dali. A verdade é que devemos começar com pequenos contos, fábulas, crônicas, histórias bem diretas, igual criança, para depois ir aumentando a dificulda Entretanto, como bem falou o autor, esse tipo de literatura não alimenta a imagem. Bastaria eu falar que li Dostoiévski (por que não falar que li duas, três) e dizer ao mundo: HABEMOS UM HOMEM CULTO! LI O CALHAMAÇO! - e consultar o resumo no GPT né? Vai que alguém faz pergunta...
Nossa, texto perfeito! A minha solução para esse problema foi ser mais humano e menos arrogante. Entender que todos têm o mesmo valor, independentemente de suas atitudes, me ajuda muito nisso. Não quer dizer que eu seja um santo; quer dizer que eu posso ter compaixão e misericórdia pelo meu coleguinha, mesmo que ele nunca tenha lido nenhum autor russo famoso.
Quanto à leitura, o que me ajuda a ser mais honesto é ser um leitor medíocre, que só lê quando tem vontade. Eu não me obrigo a ler há um bom tempo, e é uma ótima escolha, eu acho. Por isso, também me falta leitura, mas eu quero manter a minha liberdade. Tenho medo de não absorver, de não entender, de não tragar e me tornar isso; em consonância com isso, é impossível fazer isso se não for no meu ritmo. Também é uma forma de me sentir mais seguro por causa do analfabetismo funcional e do medo de não absorver o que leio.
Esses caras realmente me puseram uma pulga atrás da orelha que não sai mais de mim; tanto é que parei de ler Os Irmãos Karamázov por isso (é óbvio que eu me arrependo disso), ainda que eu estivesse em uma das minhas primeiras leituras (a minha primeira depois de O Pequeno Príncipe foi Crime e Castigo kkkkkkkkkk), eu estava bem nela.
Olavo de Carvalho foi uma dualidade interessante, na minha opinião, entre causar uma insegurança gigantesca na classe estudantil brasileira e, ao mesmo tempo, contribuir bastante. Sinceramente, eu acho bom que tenhamos essa insegurança, já que ela é capaz de trazer grandes talentos — ou não — à cultura, o que é bom. Modéstia à parte, os talentosos vão superar a insegurança, ou ao menos percebê-la rapidamente.