ÓRGÃOS, de Thiago Batalha
Um poema ou uma tese de doutorado?
Órgãos
Olho e vejo paisagens repetidas.
Meu olho é boca: vê, mastiga, engole
ruas, motos, coisas idas e vindas.
Ouço e escuto paisagens repetidas.
Minha orelha é mão: escuta, segura
ventos, músicas, rumor aos montes.
Mais não posso dizer dos outros órgãos:
dos demais sentidos não faz sentido
eu falar. São órgãos que toco mal.Os poemas casuais, vistos como tal, operam milagrosamente pelo mecanismo inverso da expectativa: vamos ao texto desinflado, sem saber o que acharemos, sequer empossados de intenção. São textos que aparecem, e depois esmiuçamos alguma coisa deles. Quem nunca se frustrou pelo hype?
“Órgãos” é um poema sobre percepção, mas sobretudo sobre a falência parcial da linguagem diante da experiência sensível. Peço que releiam o que acabei de dizer, e tentem assimilar antes de continuar, isso facilitará a compreensão.
Ele parece pequeno, quase casual, mas é extremamente calculado. O efeito principal vem da maneira como ele desmonta as fronteiras entre os sentidos e faz disso não um exercício surrealista gratuito, mas uma reflexão sobre o próprio ato de conhecer o mundo. É um poema epistemológico. E nisso, creio eu, reside a graça do desfecho: inverte o tom, porque estava se tornando muito sério.
A primeira coisa notável é a insistência em “paisagens repetidas”. Ela aparece duas vezes, uma fadiga perceptiva. O mundo, de uma enorme redundância, já não se manifesta como revelação. Monotonia ontológica, como um intelectual acadêmico poderia cravar. O sujeito não está descobrindo o mundo, está sendo atravessado por um fluxo contínuo de imagens e ruídos indistintos.
O primeiro verso:



