O Manual do Poeta: o espaço, a impressão gráfica e a pontuação
Forma não é ornamento: a pontuação como arquitetura do sentido
Introdução
Abaixo temos quatro versões do mesmo poema, tomem um tempo para descobrir qual é a verdadeira, sem procurar na internet:
OFICINA IRRITADA,
Carlos Drummond de Andrade
1)
Eu quero compor um soneto duro como poeta algum ousara escrever Eu quero pintar um soneto escuro seco abafado difícil de ler Quero que meu soneto no futuro não desperte em ninguém nenhum prazer E que no seu maligno ar imaturo ao mesmo tempo saiba ser não ser Esse meu verbo antipático e impuro há de pungir há de fazer sofrer tendão de Vênus sob o pedicuro Ninguém o lembrará tiro no muro cão mijando no caos enquanto Arcturo claro enigma se deixa surpreender
2)
Eu quero compor um soneto duro como poeta algum ousara escrever. Eu quero pintar um soneto escuro, seco, abafado, difícil de ler. Quero que meu soneto, no futuro, não desperte em ninguém nenhum prazer. E que, no seu maligno ar imaturo, ao mesmo tempo saiba ser, não ser. Esse meu verbo antipático e impuro há de pungir, há de fazer sofrer, tendão de Vênus sob o pedicuro. Ninguém o lembrará: tiro no muro, cão mijando no caos, enquanto Arcturo, claro enigma, se deixa surpreender.
3)
Eu quero compor um soneto duro, como poeta algum, ousara escrever; eu quero pintar um soneto escuro — seco, abafado, difícil de ler. Quero que meu soneto, no futuro, não desperte, em ninguém, nenhum prazer; e que, no seu maligno ar imaturo, ao mesmo tempo, saiba ser — não ser. Esse meu verbo, antipático e impuro, há de pungir; há de fazer sofrer: tendão de Vênus, sob o pedicuro. Ninguém o lembrará: tiro no muro; cão mijando no caos, enquanto Arcturo, claro enigma, se deixa surpreender.
4)
Eu quero compor um soneto duro, como poeta algum ousara escrever. Eu quero pintar um soneto escuro, seco abafado difícil de ler. Quero que meu soneto, no futuro, não desperte em ninguém nenhum prazer. E que, no seu maligno ar imaturo, ao mesmo tempo saiba ser não ser. Esse meu verbo antipático e impuro há de pungir, há de fazer sofrer, tendão de Vênus sob o pedicuro. Ninguém o lembrará, tiro no muro, cão mijando no caos enquanto Arcturo claro enigma se deixa surpreender.
E aí, fácil? Antes que eu dê a resposta, quero que meditem comigo a seguinte pergunta, que tentaremos responder: a pontuação, dentro da poética, é meramente quantitativa, qualitativa, ou ambas?
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