O CARRINHO DE MÃO VERMELHO, de William Carlos Williams
Enquanto a imagem resiste: sobre a nostalgia, a perda e o senso utilitário
Como de praxe, antes de mais nada, o poema:
THE RED WHEELBARROW
so much depends
upon
a red wheel
barrow
glazed with rain
water
beside the white
chickens.
William Carlos Williams A tradução aqui oferecida é de Haroldo de Campos:
CARRINHO DE MÃO VERMELHO tanto depende de um carrinho de mão vermelho vidrado pela água da chuva perto das galinhas brancas.
Se eu te perguntasse, leitor, em quê consiste a nostalgia, o que você me responderia?
νοσταλγία
As respostas, posso supor, irão se dividir em três tipos: uma definição do conceito, ou memórias que sejam nostálgicas, ou ainda — e é aqui que nos divertimos — em uma imagem poética aproximada. Você, na sala, jogando seu snes em dias chuvosos, não?
Como imagem quero dizer literalmente imagem: uma representação mental, uma memória vívida, um resto visual de alguma coisa — um recorte, uma cena mal iluminada, algo que se vê sem saber de onde veio.
A imagem, por ser poética, não explica o passado; ela o reapresenta, como um objeto encontrado no fundo de uma gaveta que já não sabíamos mais que tínhamos posse.
Quando somos jovens, essa imagem ainda nos atravessa sem mediação. Ela dói, comove, desloca. Com o tempo, porém, aprendemos a narrar demais. Organizamos o vivido, damos nome ao que foi confuso, e nisso perdemos a experiência bruta da nostalgia: o belo sofrido sem intermediações. O que antes era visão torna-se discurso; o que era imagem vira comentário. E, na posse da linguagem descritiva, vamos tornando longe o que o nostálgico é perto.
É uma capacidade que o poeta precisa e deve tentar resgatar, a todo custo, essa da imagem. O assunto, como forma de cosmovisão, fora tratado por Fernando Lima em seu texto:
Para a análise do poema, e para nossos fins, eu gostaria que tivéssemos em mente a ideia de que a nostalgia só existe enquanto imagem, nunca como lembrança fiel. É uma aparição: um quadro incompleto, um gesto suspenso, uma luz que não sabemos datar. No poema, ela surge assim — sem contexto, sem história, sem mediações excessivas do ato narrativo.
É precisamente essa indeterminação que a sustenta.
Algumas pessoas, já como um senso comum, ou bom senso, dirão que o problema começa quando tentamos reencontrá-la. Quando buscamos o lugar, a pessoa, o objeto, como se a nostalgia fosse algo recuperável. Nesse gesto, a imagem se quebra. Aquilo que era visão torna-se comparação; o que comovia passa a ser medido. O presente, inevitavelmente, fracassa em corresponder à imagem, e o fracasso corrói a própria nostalgia. A nostalgia não tolera verificação.
O poema sabe disso: não tenta reproduzir o passado, mas preservar sua forma fantasmática. É uma defesa da imagem contra o impulso adulto de confirmar, explicar e possuir aquilo que, por natureza, só pode ser visto — e perdido.
O “Carrinho de Mão Vermelho” é a imagem, em estado puro.
Tentaremos apreendê-la com uma missão especial: a de não quebrá-la, no processo de análise, do mesmo modo que fazemos com tantas nostalgias que temos.



