Meditações sobre o pertencimento — 1
Por meio de quatro ou cinco grandes poemas que nossa língua produziu
A ideia dessa série surgiu com um comentário do O Crítico Bem-Temperamentado , espero que gostem. Vou abordar um poema por vez, em artigos curtos.
O primeiro, de Bruno Tolentino, é um poema contido em Os Deuses de Hoje:
Ruas V.
Quando falo das ruas do Rio de Janeiro
penso na Zona Norte em que passei a infância,
o resto não me importa. O resto é essa distância
em que eu sumi um dia, o vago mundo inteiro
que muito me encantou, mas que não vale o cheiro
da terra quente sob a chuva em que eu criança
pousava os pés descalços, aqueles pés de dança
de pedra em pedra sobre o rio Trapicheiro.
Não tenho nada a ver com a rua Toneleros,
com a Via del Garófano ou com a Bahnhofstrasse;
nada perdi por lá, por mais que passasse
dois pés inúteis. Somos todos estrangeiros
de rua em rua e só cabemos nos primeiros
e nos últimos passos, o resto é beco, impasse.Sensação melhor que nostalgia não há. Tampouco pior. Podemos pensar em certo pertencimento geográfico, na ordem de um terroir: aquela casa, aqueles dias, aqueles avós. O sentido banal da ideia de geografia nos levaria, se caminharmos bastante, ao conceito de pátria sensorial. É aquilo que nos constitui por experiências corporais tão antigas que se confundem com a própria estrutura da identidade. O tema aparente do poema são ruas. O tema real é a impossibilidade de voltar ao lugar onde se foi inteiro. Crescer é um ato de marchetaria, carpintaria, costura, toda arte que pressupõe o remendar, o polir, o desbastar, amalgamar, integrar e desintegrar. O primeiro verso estabelece este conflito quando o eu lírico fala das ruas do Rio de Janeiro e não fala da cidade como totalidade. A cidade turística, histórica, cultural, desaparece diante de algo tão importante quanto a cidade que nos habita. Fala de uma região específica: a Zona Norte da infância. Há uma redução radical da escala, difícil negar, difícil competir também; todos nós trazemos este mapa na nossa memória afetiva. Descartaríamos tão facilmente o mundo inteiro em favor de seus fragmentos. A afirmação que nos identifica ao poema se encontra presente já no terceiro verso: “o resto não me importa”.
o resto não me importa. O resto é essa distância
em que eu sumi um dia
Frase que soaria provinciana, se não fosse imediatamente aprofundada. O resto é o mundo todo, aquilo que veio depois, a distância entre o sujeito e sua origem. A literatura que fala das grandes coisas, e das viagens, e do senso de mundo, celebra a ampliação de horizontes. Aqui acontece o contrário. O “vago mundo inteiro” é reconhecido como algo encantador, mas sua grandeza é diminuída por uma memória olfativa extremamente concreta: o cheiro da terra quente sob a chuva.
Se vocês não sabem qual é este cheiro, eu sugiro, de verdade, um perfume. Na verdade dois, um deles muito acessível, por ser nacional: Ekos Ryo Chuva, da natura, e Terre d'Hermès. As experiências sensoriais são importantes para os poetas. Não sou afiliado de nenhuma destas marcas, mas creio que deveria. Estou trabalhando de graça para eles, praticamente.
O cheiro é importante porque representa uma forma de memória mais profunda que a memória intelectual. Não é pelos acontecimentos ou narrativas que recordamos as coisas, senão pela sua sensação física. O poema sugere que a identidade é construída pelos primeiros contatos sensoriais que tivemos com o mundo, nosso repertório de cheiros, paletas de cor, temperatura e espaço visível. Uma identidade não se constrói pelas ideias que acumulamos ao longo da vida, e podemos até recordar que, caso seja, há algo perigoso em jogo. Tanto que a passagem mais bonita seja justamente aquela em que a criança aparece como corpo:
aqueles pés de dança
de pedra em pedra sobre o rio Trapicheiro.
Os pés são a verdadeira unidade narrativa do poema. Falo isso com a intenção ambígua. Mente, consciência, biografia, palavras difíceis. Dispensaremos elas. Vemos, primeiramente, a ideia dos pés descalços, que reaparecem como “dois pés inúteis”, uma transformação muito triste. Na infância dançam, na vida adulta passam. O deslocamento entre descoberta e errância nos ofende, se pensarmos bem. Trocamos um tanto de coisas boas por outras coisas que parecem igualmente boas, mas experiencialmente espúrias. É interessante ler o poema como essa história de degradação.
Não tenho nada a ver com a rua Toneleros,
com a Via del Garófano ou com a Bahnhofstrasse;
nada perdi por lá, por mais que passasse
dois pés inúteis.
Os tercetos, ampliando o tema, trazem estes três mundos distintos: uma rua carioca, uma italiana e uma alemã. A enumeração produz um efeito curioso, que, ao invés de especificar, evidenciam o desenraizamento. São ruas de qualquer lugar, que estariam em qualquer lugar. Todas são igualmente estranhas. Perdemos apenas aquilo que nos pertence. Se nada foi perdido nestas ruas, ora, é que realmente nunca foi delas. Daí a conclusão:
“Somos todos estrangeiros”
Crescer, é coisa de poeta, soa como espécie de espinho. Vive-se de muitos modos, mas em quase todos eles, essa sensação que é viver permanentemente deslocado de si mesmo. Sensação que gera buscas, e que todo aparato de marketing se especializou em tentar vender. Porque, vejam vocês, caminhar de lugar em lugar tentando reencontrar uma intimidade que só existiu plenamente num passado irrecuperável, é loucura. Por isso mesmo o fechamento alude ao infante e ao idoso:
“só cabemos nos primeiros
e nos últimos passos”
É uma concepção inteira condensada na ideia dos primeiros passos, lidos com infância, formação de identidade, que é o tema dessa série de artigos, e os últimos, destino final em morte. Há o meio, que e o percurso da vida, descrito de forma estranhamente negativa. Cliché até, eu diria:
“o resto é beco, impasse.”
Interessante notar, por fim, que o campo metafórico urbano permite coisas como o beco, caminho que promete continuidade e termina abruptamente. Um impasse é um movimento que não encontra resolução. Daí a impressão psicológica de que o eu-lírico é alguém que já percorreu muitos lugares e descobriu que o deslocamento não produz pertencimento. Bonito, por outrro lado, é este fundo desiludido de coisa humana que, apesar de tudo, se desilude de forma serena, sem ressentimentos. Mundo belo, certo é se encantar. Mas não é a lembrança desse belo que substituirá aquilo que fora perdido. Daí surgem as crises, daí o meio caminhar de nossa vida. Infância, reparem, não é justamente um estado de coincidência entre corpo e lugar?
Vejo quem viaja muito, todos parecem viver décadas inteiras atravessando ruas, cidades e países, e os passos se tornam cada vez mais cansados, querem casa. Geram essa melancolia que o Tolentino traz no poema, tão particular que pertence a todos nós. Ideia de pátria, que somos expatriados numa tarde de nossas vidas, e não voltamos, e então buscamos e buscamos uma maneira de estar vivo que só existiu durante alguns anos, e que nenhum caminho posterior consegue restituir.
E essa é sensação fundante e constitutiva de estar vivo como humano, é a experiência, também, que chamo de “primeiro marco” do poeta. Todos que a trazem são potencialmente poetas. Os que decidem tentar aprender a escrevê-la são poetas em potencial.
O próximo poema é surpresa.
Brian Belancieri.





