E a chance de ganharem é zero
Um artigo breve que é, ao mesmo tempo, uma pontada de esperança e o cinismo em relação às comunidades literárias, concursos e afins
Ontem andei pontuando um detalhe bastante interessante no meu outro perfil, que é voltado pra algazarra e patadas, este aqui:
E que toca no tema da literatura dita conservadora. A ideia é bem simples: a literatura conservadora nunca será nada do que se pretende ser (nascida em contraste à literatura que identificam “de esquerda”) apenas porque tentam ser literatura conservadora e não literatura. Isto já está dito no artigo da página acima.
Hoje, e aqui, eu quero comentar algo muito pior que o delírio farsesco de uma literatura conservadora (porque, de qualquer modo, acredito na melhoria das pessoas que tentam escrevê-la): a completa e crescente falta de critérios, ou deturpação dos mesmos, nos circuitos de consagração social.
Em 2025 o Prêmio Prata da Casa, na sua segunda edição, escolheu para primeiro lugar o seguinte poema:
O Ofício do instante
No fio da manhã, a luz engendra o caos,
tece o tempo em linhas tortas,
bordando o tecido ralo dos dias.
Cada respiro é uma trama frágil,
uma aposta no acaso,
uma faísca na vastidão.
A vida não se explica;
ela se inventa em mãos sujas de terra,
no riso que escapa da chuva,
no silêncio que grita enquanto dormimos.
É um barco que navega sem bússola,
seguindo o boato das marés.
Se faz na queda, no voo,
no tropeço que ensina a rir,
no olhar que encontra outro
e descobre um universo inteiro.
É canção desafinada ao vento,
um refrão que muda conforme o caminho.
Mas há um instante, imprevisto,
em que a vida se dobra sobre si mesma.
Um eco distante,
uma curva que revela o abismo.
Nesse ponto, o fio se rompe,
mas o tecido insiste em crescer.
E quando tudo parece desfeito,
uma flor absurda brota do impossível.
Não há lógica no florescer,
somente o pacto secreto
entre o nada e o ser.Eu gostaria de comentar o poema vencedor, e apontar nele algumas circunstâncias curiosas.
A primeira delas é essa densidade metafórica homogênea. O poema todo parece operar em um sistema ou regime de linguagem “blocada”. Observem:
“fio da manhã” “a luz engendra o caos” “tece o tempo” “tecido ralo dos dias” “trama frágil” “faísca na vastidão” “barco sem bússola” “boato das marés” “canção desafinada ao vento” “flor absurda” “pacto secreto entre o nada e o ser”
É comum, em qualquer poema, que alternemos entre imagens, observações, memórias, sensações, acidentes verbais, quebras e reformulações. Entre cada forma de imagismo (sonoro, visual, do logos), observamos mutações e oposições. É o que dá um ritmo humano ao poema. No poema vencedor há uma temperatura poética constante.
Junto dela, a ausência de experiências concretas, individualizadas (a despeito de nenhuma ser realmente individual).
Notem a qualidade abstrata e simbólica em todos os versos: tempo, caos, acaso, vastidão, universo, abismo, impossível, nada, ser. Nada materialmente real, e mesmo em “mãos sujas de terra”, “chuva”, “barco”, “flor” — pontuados como símbolos universais, ou em qualquer clave que se queira, menos na experiência vivida.
Nós, humanos, deixamos escapar essas coisinhas belas, os detalhes inúteis e as memórias involuntárias, os erros de proporção e os vícios de linguagem. É nessa forma de ser que apostamos a tal inspiração.
Aqui, por outro lado, tudo parece “curado” para soar poeticamente aceitável. Mesmo poetas muito bons têm zonas de estranheza pessoal. Aqui não há nenhuma. Nada. Nenhum excesso, quebra, imagem desnecessária, obsessão ou intranquilidade. É de uma semântica muito correta, otimizada, de infinitas continuidades plausíveis.
O poema poderia continuar infinitamente, aliás.
Eis uma continuação plausível:
E seguimos, mesmo cegos, como quem acende fósforos dentro da noite para medir o tamanho do escuro. Há um rumor de raízes sob o cimento, uma paciência mineral sustentando os passos. O mundo range devagar suas engrenagens invisíveis, enquanto o coração aprende a bater no intervalo das ruínas. Toda perda abre uma porta sem moldura, e às vezes é preciso atravessar o incêndio para descobrir que as cinzas também respiram.
Não soa como uma redação filosófica lírica, tentando propagar um ensinamento existencial? É possível denotar uma tese, subjacente à escrita, como um roteiro:
a vida é caótica;
a vida se constrói;
há sofrimento;
há ruptura;
ainda assim florescemos.
A poesia contemporânea de concurso frequentemente premia exatamente isso:
Ademais, há um traço mais inquietante que todos os outros: a ausência daquele conjunto único de características linguísticas de um indivíduo, representando sua maneira particular de usar a língua. É o traço que chamamos de “idioleto”. É este traço que permite que eu, enquanto leitor, consiga reconhecer em duas ou três linhas, quase qualquer escritor expressivo:
o de que, entre os grãos pesados, entre um grão imastigável, de quebrar dente. Certo não, quando ao catar palavras:
ou:
Impossível trabalhar. Dão-me um ofício, um relatório, para datilografar, na repartição. Até dez linhas vou bem. Daí em diante a cara balofa (…) aparece em cima do original, e os meus dedos encontram no teclado uma resistência mole de carne gorda. E lá vem o erro.
ou ainda:
Sei que a voz das águas tem sotaque azul. Sei botar cílio nos silêncios. Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Não há uma única linha que eu consiga imaginar pertencendo necessariamente a uma pessoa específica. É um poema (vamos emprestar linguagem) vanilla, blanc, genérico.
Eu me pergunto, de coração, como uma banca de jurados de um concurso que é dito o maior do Brasil, deixa passar um poema desses, em primeiro lugar, e coloca lá embaixo, uma obra de um exímio poeta como Wagner Schadek?
PENÉLOPE
(À memória de minha avó)
Não há retorno. Já faz muitos anos.
Mesmo assim inda aguardas. Tanto fias
premendo a vista em pontos venezianos
que já trocas as noites pelos dias.
Ele não voltará. Nas manhãs frias,
desfia insônias pregadas nos panos.
Dele ficaram gestos e manias
que a todos sobressaem desenganos.
E um sorriso em teu rosto se abre em rugas
como veludo, enquanto ao sol alugas
a memória. Mas já derrete a neve
de teu cabelo. As Horas põem defeito
em tua costura, agulhas em teu peito.
O tempo é dor. A vida passa breve.Isto, do jeito que está escrito, é obra de um grande mestre. Aquele, vocês me desculpem, é exatamente o que vocês sabem o que é, e como foi feito.
O exemplo, apenas um exemplo, é amostragem de uma tendência terrível e acachapante. Não consigo analisar concurso por concurso, e nem preciso, para pontuar que, em termos de qualidade, exceto talvez a Biblioteca Nacional, todos os outros prêmios são enviesados por três e não mais que três destes fatores: grana, política, militância. E, então, sem surpresa, coisas como essa aqui, acontecerão para todo sempre, mantidas as condições:
Em que o próprio editor diz ter gasto uma boa grana,
“As inscrições me custaram quase R$ 2.500,00.”
Pra perderem para livros, ou poemas, ou o que quer que seja, que já estavam definidos ou antes do jogo começar, ou escolhidos depois do prélio, ou inevitavelmente selecionados por motivos espúrios e extraliterários.
Eu, particularmente, adoraria ver essa editora crescer ao nível de uma Companhia das Letras, reimprimindo uns mil livros que jamais veremos pelos grandes selos. Mas é preciso consagração social para que as empresas cresçam. Os concursos mais inteligentes já perceberam que dá pra fazer muito dinheiro com inscrições e uma publicaçãozinha de prêmio. Os mais sérios, apenas mais um circuito político de consagração. E os verdadeiramente comprometidos, que querem jogar limpo, bem, é uma pena. Não sei se sobreviverão ao mundo selvagem da intelectualidade burguesa do Brasil.
Mas o que eu digo, observando já grandes escritores:
Repito, observando já grandes escritores e MESTRES:
O grande pulo do gato da história da prosa no Brasil, que não é para quem vive de aparências nem para covardes, é que ela será feita (sempre foi) tal qual a história da Igreja: são os santos a história da Igreja, não sua aparência pública de Vaticanos e Bizâncios. É a história dos santos e de suas catacumbas. É a história do escritor que escreveu, calou a boca e passou ao largo de tudo isso. É a história de Clarices, Gracilianos, Machados. Foi a história de Emmanuel Santiago. É a de Wladimir Saldanha e João Filho. Nestes concursos, gente desse calibre só deve entrar como jurado, para elevar o nível geral, e abandonar assim que, inevitavelmente, a casa começar a cair.
Não sei se há muito mais o que dizer, e não quero ficar dourando a pílula. A esperança é essa, que se criem escritores interessados em literatura, e nada mais.
Tirem algo bom disso aqui pra vida de vocês.
Brian Belancieri.







Concordo contigo. O ambiente atual é dominado por um ecossistema militante de cartas marcadas. Acaba que o participante nem saberá se foi realmente lido. Os únicos concursos que creio ter sido lido, por exemplo, foi no cultural de Carlos Barbosa-RS, porque me deram uma nota (Verdadeira? Aleatória? Não sei), e no da Comala, porque eles queriam 360 contos.
Penso que a solução é criar um ecossistema independente. Um meio literário sincero, sem vertente política, entre os mestres de verdade, que você indicou, e um público que quer pelo menos ser lido, elogiado ou criticado. Sanearia os dois lados
Eu pagaria para alguém me dizer que minha escrita é uma bosta e que preciso melhorar em mil aspectos: já seria um norte. Então penso que a própria Danúbio poderia sediar um concurso com essa proposta, guardas, é claro, as devidas proporções. Sei que não é um morango fazer esses editais, mas hoje em dia se patrocina tanta bobagens e golpes nos crossfundings e vakinhas, tenho certeza que a deles seria um tremendo sucesso.
Tenho a impressão de que as coisas continuem assim por um bom tempo. Esses concursos de aparências, de tapinhas nas costas, costumam ser mais atraentes e contagiantes que algo sério, algo que obrigue dedicação e persistência.