Do not go gentle into that good night
Comentários ao maior poema já escrito.
Talvez não seja segredo que a Villanelle de Dylan Thomas seja meu poema favorito. Afinal de contas, é quase uma oração-de-força contra a entropia natural do todo. Gosto muito de rezá-la. É um poema que nos acompanha nos piores dias.
A Villanelle, como sabem, é uma forma fixa da poesia francesa composta por cinco tercetos e um quarteto final. O primeiro e o terceiro versos da estrofe inicial retornam alternadamente ao longo do poema, refrões obsessivos, até se encontrarem no dístico derradeiro do quarteto final. Famosas são as villanelles One Art, de Elizabeth Bishop, e A Villanelle, de Oscar Wilde. No Brasil temos Firma Teus Olhos Nesta Areia Rasa, de Pedro Mohallen, também um dos maiores poemas já escritos em língua portuguesa, um dos maiores poetas vivos que temos, e decididamente nosso melhor tradutor.
Do not go gentle into that good night
Do not go gentle into that good night, Old age should burn and rave at close of day; Rage, rage against the dying of the light. Though wise men at their end know dark is right, Because their words had forked no lightning they Do not go gentle into that good night. Good men, the last wave by, crying how bright Their frail deeds might have danced in a green bay, Rage, rage against the dying of the light. Wild men who caught and sang the sun in flight, And learn, too late, they grieved it on its way, Do not go gentle into that good night. Grave men, near death, who see with blinding sight Blind eyes could blaze like meteors and be gay, Rage, rage against the dying of the light. And you, my father, there on the sad height, Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray. Do not go gentle into that good night. Rage, rage against the dying of the light.
1.
Este poema foi escrito pelo poeta galês Dylan Thomas, e publicado em 1951. Foi dedicado ao pai, de uma forma que pode ser, universalmente falando, apreendida por todos. A primeira publicação acontecera numa revista literária, mas ele logo tratou de incluir em um de seus livros. Meu avô dizia: “é como enfiar uma lâmina de barbear no bolso da camisa e sair andando”. Nunca entendi a frase, mas como toda poesia possui sua dose insondável de impressões, eu sinto que foi exatamente isso que Dylan fez.
Poema escuro até o osso. Ao girar em torno da agonia de permanecer, tira forças da própria ideia de força: diante da própria extinção, o homem, tentando agarrar a vida com as unhas, mesmo quando não há nada pra ser segurado, persiste e persiste. O pai de Dylan morreu pouco depois da publicação. Reduzir este poema ao fato biográfico é passar ao longe dessa percepção de que nenhuma experiência é realmente individual. Desnecessário amputar assim a vida. A voz que fala ali ultrapassa o próprio autor; pertence à velha criatura humana diante da noite, insistindo de forma intolerante com a ideia de cessar.
É peça suprema de literatura apenas porque — e nada muito mais que — conseguiu transformar o horror da morte em motivo furioso para a rebeldia que é tecido da própria vida. Ademais, não acidentalmente, que se unissem a ela boa técnica, bom ritmo, excelentes imagens visuais, sonoras, de pulso e tensão.
É um poema cujo eu-lírico, insistente, se dirige primeiro ao leitor, e então, podemos perceber também, ao pai. Seu tom é o tom de quem, num acesso de justa raiva, tenta banir a indignidade de um local relembrando o dever que todos temos conosco — que a morte não deve ser recebida com mansidão bovina, não abaixem a cabeça para o cutelo.
Os homens dignos resistem. Resistir é vestir de dignidade os homens.
Lutam até o último fôlego, porque sabem que ainda havia algo a fazer neste mundo: cumprir uma palavra, um gesto, uma pertença. Vale para os homens vorazes, de violência luminosa, que sabem terrível é abandoná-la.
Essa progressão interessante do poema começa pelo universal, abstrativo, próximo de todos porque tão distante, e avança, decanta de eras e eras, e chega até ti, meu pai, que vai morrer e talvez não tenha vivido uma vida, mas me deu uma. Não te entregues à escuridão com serenidade piedosa. Quero vê-lo furioso, incendiado, amaldiçoando a própria extinção, com a força que tinha quando, de minha idade, brilhava altivo e dobrava ferraduras com a mão.
É este o núcleo afetivo do poema. Inteiro construído de nãos. Vamos pela mesma clave.
2.
Transformar movimento verbal em “tema” é uma maldição presente na alfabetização brasileira. Tudo vira conteúdo abstrato resumível. “O poema fala sobre como confrontar a morte.” Sim, mas isso é quase irrelevante perto da maneira como ele constrói linguisticamente essa confrontação.
Dizer que o poema ensina alguém a enfrentar a morte também simplifica demais a tensão interna dele. O texto não “ensina” propriamente; ele implora, repete, insiste, repete, pressiona, repete. A diferença é importante. Um ensinamento pressupõe estabilidade intelectual. Esse poema é emocionalmente instável.
Quando se vê cantar, pelo eu-lírico, que não se deve ir tão mansamente às trevas, mas enraivecer-se, podemos notar que o imperativo é um princípio moral. Mas essa raiva do poema, quase reflexo fisiológico, não se faz ver como virtude ética. Combustão residual da consciência, talvez. É que, tratando-se de poesia, segue o firme mandamento dos sentidos, que preza o atrito sonoro antes da sabedoria da ideia.
É um poema cheio de consoantes violentas: grave, blind, blaze, rage. Pronuncia-se na mastigação das pedras. A energia está na matéria fonética antes de estar no conceito. Daí que a tendência a tematizar tudo, sem exceção, tentará colocar vida e morte em oposição. Deixará de ver o contínuo entre intensidade e dissipação.
Muitos dos homens descritos já estão parcialmente mortos antes do fim físico, porque percebem que não realizaram plenamente aquilo que poderiam ter sido. É algo perceptível nos versos condicionais: might have danced, too late.
Este terror, nós o colhemos diariamente, quando sentimos que a energia da vida não encontrou forma suficiente no mundo.
Nos elos de correntes que formamos entre os nossos pais, e os pais destes, e nossos filhos, e os filhos destes, vemos infindáveis categorias — wise, good, wild, grave — que funcionam quase como máscaras possíveis para o próprio pai. O filho tenta encontrar uma forma de dignidade terminal que possa servir àquele homem específico que está desaparecendo. O homem luta mesmo sabendo que perderá. E talvez justamente por isso a repetição soe tão proeminente: ela acontece dentro da consciência da derrota inevitável. Tampouco, é claro, se glorifica ingenuamente a resistência. Os “wise men” sabem que “dark is right”. Fundamental é entender. A morte está certa. O universo não deve explicações. Abdiquemos docemente dessa metafísica romântica de sentido simplista.
É reza porque é, também, rito verbal contra a impotência.
3.
A crítica pedagógica moderna costuma fazer com poesia a mesma coisa que o jornalismo da tv aberta faz com as tragédias de sempre: espremê-las até que se tornem lição de vida. É tudo uma moral confortável sobre valorizar melhor alguma coisa. A carochinha está cansada de versar sobre o que realmente importa. Cartazes motivacionais sofisticados, são os poemas na mão dessa forma de crítica.
Certo é que Dylan Thomas está muito mais perto da histeria do que da sabedoria. Podemos pensar levianamente que o núcleo didático do poema se assenta sobre a ideia de clarificar algo que as pessoas frequentemente se esquecem — que a vida é preciosa — eis uma ideia especialmente redutora. Mas não há gratidão serena pela existência. Há frustração, excesso, incompletude. O que move os homens do poema não é amor equilibrado pela vida; é a percepção violenta de insuficiência diante do fim.
Homens mais sábios que nós já descobriram que não é a melhor das coisas fazer um impacto maior no mundo. O verso que atesta isso, no poema, é muito mais estranho e físico: their words had forked no lightning. Não é a mesma coisa que “não deixar legado”. Relâmpago, ruptura súbita, energia atmosférica, clarão destrutivo, quê mais se pode inferir? O poeta teme que a linguagem não tenha adquirido potência ontológica. Que as palavras tenham permanecido abstratas, incapazes de fender a realidade. Que diabos?
4.
O final reorganiza a leitura inteira do poema. É diferente de transformar a tensão poética inteira em um finale equilibrado em paz conceitual e elegante. Até os maiores poetas caem na cilada de pensarem a própria produção como coisa universal e específica ao mesmo tempo. Isso é uma verdade, mas dito assim parece conclusão de seminário, e falamos justamente do contrário, de uma leitura viva do texto. O ponto decisivo não é que o poema “fica pessoal” no fim. Ele já era pessoal desde o início. O pai não entra no poema, emerge dele. Há diferença.
Vejamos novamente o caso das categorias — “wise men”, “good men”, “wild men”, “grave men” — nunca funcionam realmente como arquétipos universais puros. Têm algo de inventário ansioso. Será o filho procurando uma forma de enquadrar o pai antes que ele desapareça? Que tipo de homem morreu aqui? Deveríamos nos perguntar mais essas questões.
Por isso o “And you, my father” colapsa a abstração. Até aquele momento, o poema consegue manter certa distância retórica através dessas máscaras masculinas sucessivas. Quando o pai aparece, a linguagem hermética dos poetas perde o esconderijo. Oferecer encorajamento a este pai é uma ofensa. Encorajamento é uma palavra absurdamente fraca para o que acontece ali. O tom do poema final é quase coercitivo. O filho exige intensidade do pai morrendo: Curse, bless, me now with your fierce tears. Não vamos nos importar com que se o pai abençoa ou amaldiçoa; o conteúdo já perdeu importância. O que importa é a permanência de uma força vital perceptível. O filho quer qualquer sinal de combustão subjetiva antes do apagamento. Thomas animaliza o luto, a tristeza precisa vir com dentes.
Abandonemos, então, qualquer forma de visão que ofereça a ideia de encarar a morte com dignidade. É possível viver com dignidade. Impossível morrer com ela. O poema inteiro parece escrito contra a compostura. Inclusive, a própria villanelle trabalha contra qualquer sensação de equilíbrio digno. Não fora criada para progredir, antes retornar ao mesmo ponto. Desacordo entre consciência e instinto, impossível conciliar. O poema entende a morte, mas se recusa fisiologicamente a consentir com ela.
O particular é o aspecto intensivista do universal, um dentro do outro, em círculos concêntricos.
E o pai no final abrange toda essa impressão numa única presença concreta. O universal não desaparece dali; ganha carne. É que toda teoria sobre mortalidade muda completamente quando o morto tem rosto.
Brian Belancieri.


