Como escrever um poema profundamente intenso, terrivelmente curto e incrivelmente belo?
Que, inclusive, seja menor que esse título...
A imagem
Considerem vocês o susto quando, no auge de toda lenga-lenga modernista, mestre Pound publicava aquele poema que era mais curto que um haicai:
The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.- Pound, ERZA.
É, até hoje, um documento histórico do imagismo.
Escrever um poema profundamente intenso e terrivelmente curto exige uma espécie de crueldade estética. É preciso cortar tudo o que explica, tudo o que adorna, tudo o que apenas preenche. Se vocês escreveram ao menos um soneto na vida, sabem o que é isso. É preciso abandonar a vontade impelente que nos força a encher linguiça.
O poema breve não suporta gordura: ele vive de ossos.
Cada palavra deve exprimir uma densidade comprimida de experiência completa e condensada dentro de um único gesto verbal.
A intensidade nasce da compressão. Quando você reduz o espaço, poeta, o sentido se condensa. A poesia curta não tem tempo para narrar, ela precisa fulgurar. Mostrar um objeto, cena, movimento que encarne a miríade de sentimentos da condição humana, numa única porrada.
Uma faca sobre a mesa pode dizer mais que um parágrafo sobre violência que esses pastiches líricos e sofridos daquele poeta brasileiro famoso que ainda está vivo e não citarei o nome. Uma porta aberta pode trazer mais abandono que outro poema daquela poeta famosa que também não vou citar o nome. Não preciso, são estes que você pensou, poeta.
Toda palavra, em poema curto, é aquela massa celeste que deforma tudo ao redor, e por isso mesmo é gravidade.
A beleza, nesses poemas, é ornada de precisão. A palavra exata carrega em si todos os adjetivos. Um silêncio entre dois versos pode ser mais poderoso que uma metáfora elaborada.
O poema curto é, acima de tudo, uma arquitetura de ausências: ele sugere mais do que diz, e essa sugestão cria uma espécie de necessidade interna no leitor, a de imbuir significados. O silêncio na poesia é, também, semântica.
Por isso, escrever um poema assim é aprender a retirar.
Cortar o início, cortar o fim, cortar as explicações. Deixar apenas o núcleo. Um grande poema curto parece inevitável, como se não pudesse ser escrito de outro modo, nem conter uma palavra a mais. Todo poema é assim. Mas o poema curto faz com algo menos que menos: não adianta eu ficar explicando, vocês precisam saber.
Como reduzir o mínimo ao essencial
O poema de Pound é uma aula muito sólida de como podemos unificar tradições antigas em uma única égide.
Em matéria de conteúdo, o posicionamento discreto do eu-lírico através da palavra aparição” (não se engane, as palavras que usamos revelam demais sobre nosso ethos cultural) situa, em intertexto, uma raiz diretamente conectada com os poetas da antiguidade, no sentido de que todos eles levavam a poesia e a experiência da realidade como אמונה, essa confiança na revelação e no tempo da verdade revelada. Pound toma tento perante os poetas da antiguidade que, como vates, não cantavam senão como revelação.
At same time, não há possibilidade de vislumbrarmos este poema sem sua contraparte de tradição literária japonesa. Pétalas sobre um galho negro. É, evidentemente, um eflúvio de haicai.
Como essencialmente comunicar-se com o mínimo
O usufruto das palavras mais simples e coloquiais (exceto a já citada “aparição”) permite que nossa experiência seja reduzida ao mais simples possível em termos de experiência humana. Para nos fazer visualizar essa aparição, Pound recorre a termos sensoriais ligados à natureza: “pétalas sobre um galho negro e molhado”.
Essas palavras do segundo verso evocam uma imagem extremamente concreta e visual. Isso contrasta com a metáfora mais abstrata do primeiro verso: os rostos das pessoas esperando o trem, em um dia chuvoso, surgem como uma multidão de “aparições”, fantasmas, elementos constantes na poesia antiga e primordial
Outro ponto importante, e que costuma passar batido, é que o poema não se perde nas constantes comparações e empréstimos de imagem. Os rostos não são como pétalas sobre um galho. Ele, de forma contígua, os coloca par-a-par, e o leitor é levado a comparar sozinho. Notaram este detalhe?
Vamos notar mais alguns:
Palavra-por-palavra
Preciso ser sincero com vocês: nada de bom será tirado deste poema se tentarmos traduzi-lo antes de entendê-lo. Vamos fazer uma análise técnica palavra por palavra do poema de Ezra Pound, observando implicações semânticas, imagéticas, sazonais, simbólicas e imagistas.
O poema, mais uma vez:
The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.
O artigo definido “the” é, por si só, um recorte. Não são quaisquer faces, senão estas, específicas, capturadas fotograficamente neste instante. A ideia de recorte abrupto e foco imediato, junta da ausência de explicação, fazem o cerne da indumentária imagista. Se vocês forem bem atentos, notarão que se trata de um in media res fotográfico.
Apparition, já mencionada, é a palavra mais exótica e importante do poema, pelo ponto de vista ético do eu-lírico. Com ético quero realmente dizer a ideia de ethos, de lugar. Usamos a tal palavra para fantasmas, aparições, visões súbitas, coisa que surge e desaparece. É uma forma interessante de condensar atmosfera espectral e efemeridade. É, também, uma forma de transliterar o gesto humano em, por assim dizer, uns fantasmas urbanos. Pense no metrô de São Paulo.
Também podemos realizar a ideia de multidões anônimas, sobretudo pela alienação urbana. Continuando, temos “apparition of these faces” — as faces são a aparição, constituem-na. Mas, vejamos, these indica proximidade e percepção direta do instante presente. Pound poderia ter usado those. Mas these as coloca diante dos olhos do eu-lírico. Voltando ao uso de faces: não men, ou women. Essa palavra implica, aqui, fragmentação, impessoalidade, uma mescla indefinida do elemento humano mais reconhecível.
Mas, logo em seguida, “in the crowd”.
Ao usar in, trazemos imersão, dissolução e perda de individualidade. As faces estão dentro da massa disforme. Então, e novamente, um artigo definido. A multidão se torna uma entidade abstrata, quase um organismo de onde emergem essas faces.
E, para finalizar o primeiro verso, crowd. É uma palavra contemporânea demais, que sugere um fenômeno exclusivo de cidade, e, apesar de tudo, bastante estático. Basta compararmos com manada, por exemplo.
Mas voltamos ao evento que é o uso da palavra petals. É um indicativo de floração, que nos situa na primavera, e ainda, em termos de técnica, um uso de kigo — a palavra sazonal do haicai japonês. Por outro modo, também um contraste com a multidão urbana. E, ainda, a efemeridade, porque pétalas caem rapidamente, e são, em termos de permanência, o avatar da aparição na natureza. É uma rima imagista. Em seguida, on, em relação visual direta, traz ao poema uma pincelada de composição pictórica.
Acompanhem, entretanto, que pela primeira vez temos um artigo indefinido, que transforma o núcleo visual próximo em uma imagem arquetípica. Podemos chamar esse movimento, quando usado à conta-gotas, de generalização simbólica. Mas é, e a ordem de adjetivação do inglês é soberba neste ponto, a wet, black bough, que compra no poema a ideia de atmosfera, pela chuva recente, reflexo, pela superfície molhada e brilhosa, e, evidentemente, melancólica, pois o clima úmido é um tom emocional. Essa ideia se conecta belamente com o metrô, a cidade, o efeito melancólico de qualquer megalópole. E então, em contraste, as pétalas claras contra o galho escuro. Minimalismo puro e simples. É, também, o cerne da estética japonesa. É o famoso sumi-ê.
Isso aqui:
E, por fim, a palavra bough, que significa galho. Não é branch, não é tree: é bough. São aqueles galhos estruturais. Essa implicação de delicadeza fecha o poema.
A caixinha de ferramentas (ou: como aprender as técnicas dessa composição)
Listando, temos, em primeiro lugar, uma justaposição típica do haicai, e as rimas providenciadas pela equação imagista. Obviamente, também a compressão extrema, o corte cinematográfico, a atmosfera sazonal e, por fim, o contraste estrutural.
Todas essas você pode aprender por aqui:
E por hoje é isso, pessoal.
Brian Belancieri.





