Bruno Tolentino: um estudo monolítico de caso
Agora o tapa, não é mesmo?
Porque o ser se intranquiliza
Se lermos e pensarmos o poema abaixo:
Provavelmente porque o ser se intranquiliza de já não ser o que ia sendo; intensamente, porque as fogueiras de um martírio impenitente são seus triunfos, seus troféus cheios de cinza; e finalmente porque tudo o que agoniza quer promulgar, solenizar o impermanente, o coração, naquele fundo ambivalente da coisa humana, momentâneo como a brisa, mas persuadido de que as músicas da mente hão de reter do ser algo mais que uma soma, o coração vive das sombras de um aroma. Só muito raramente esse iludido sente a força desacordar antes que a luz cadente o deixe louco como à mosca na redoma.
Podemos concluir, após algum tempo, e até como exercício interpretativo, que ele trata da ideia de que o ser humano sofre porque muda, e nesse processo se apega à dor, transformando-a em identidade: tentamos tornar eterno o que é passageiro, e fazemos essa coisa racional de tentar nos salvar do tempo, mas raramente acordamos antes de estarmos presos demais para qualquer tentativa de escapar da realidade apontada, ou de nossa percepção dela.
Essa ideia pode ser escrita de um milhão de formas diferentes. Citarei outros cinco poemas cuja feitura, em termos de tema, passa por estes mesmos que citei:
Tabacaria e Aniversário, de Fernando Pessoa
Máquina do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade
Motivo, de Cecília Meireles
Os Homens Ocos, de Eliot
E, vejam vocês, a parábola de Kafka: Diante da Lei.
Estão em ordem de proximidade, e o último sequer é um poema. Daí nos pode chegar a conclusão de que o tema pode ser algo simples, ou composto, mas a forma que damos a ele é infinita, tão múltipla, que dez poemas diferentes podem não repetir uma palavra sequer entre eles, e ainda sim apontarem para a mesma coisa.
Mas, mesmo que abundância de literatura seja algo bom, é preciso sempre ter em mente que alguns poemas são seguros demais para serem necessários.
E é isso que eu preciso que você entenda, poeta.
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Clareza de competência não é permissão ontológica
Os dois piores livros de poesia que li no ano passado vieram, respectivamente, do poeta que creio ser o pior poeta em atividade na língua portuguesa e do maior poeta — em termos de erudição no verso, conhecimento e tradição — também em atividade na língua portuguesa. Ambos coincidem em apenas um ponto: suas obras poderiam ter contemplado o mundo com suas ausências.
O primeiro, pela completa incapacidade de compreender como um ser humano funciona e de tentar transpor isso em versos.
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