A Psicologia dos Clássicos: Vidas Secas
O momento mais importante de toda literatura nacional, examinado pelo seu aspecto mais doloroso: a impotência diante da linguagem e do pensamento
Neste artigo, vocês lerão sobre a relação entre pensamento, linguagem e exclusão, a partir de Jung, Freud e Lacan. Verão como a dificuldade de Fabiano em “botar as coisas nos seus lugares” em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ilumina o conceito do sujeito barrado: aquele a quem o acesso ao simbólico é negado. Entenderão que a prisão do personagem não é apenas física, mas também linguística, e que esse cárcere se repete em nossas próprias experiências de ressentimento, silêncio e impotência diante da palavra. Por fim, perceberão que, quando a linguagem falha, resta apenas o corpo como último recurso expressivo — um gesto desesperado de quem tenta existir onde o símbolo não chega.
Introdução
Num episódio divertidíssimo, C.G. Jung, em sua clássica conferência, nos oferece uma bela definição do que é um pensamento:
“Se perguntarmos a um filósofo, ele dirá que o pensamento é uma coisa extremamente complicada; portanto nunca procure um filósofo para se informar a respeito, pois ele é, por excelência, o homem que não sabe o que é o pensamento, quando todas as outras pessoas o sabem. Quando se diz para alguém: “Olhe, pense bem!”, essa pessoa sabe exatamente o que se está querendo exprimir, mas um filósofo, não. Na sua forma mais simples, o pensamento exprime o que uma coisa é. Dá nome a essa coisa e junta-lhe um conceito, pois pensar é perceber e julgar”.
Do gracejo, entretanto, podemos notar uma coisa: seu caráter expressivo. Pensamentos expressam — ou melhor, articulam — conteúdos que brotam das imagens. É algo intimamente relacionado com o conceito de “conceito”.
Pensar, aqui, é aproximar o nome da imagem, é fazer com que a palavra toque a forma simbólica. O conceito, assim, para além de simples aglutinação, é o resultado de um processo de organização das imagens arquetípicas e seus entornos, pelo pensamento. E, se falamos de imagem, falamos de uma atividade psíquica profunda, aquela que antecede o juízo e prepara o terreno para ele.
É uma definição bastante diferente da de seu antecessor, Freud, e ainda mais distinta de seu sucessor, Lacan, embora nem um e nem outro sejam, de fato, linearmente considerados como sucessores.
Para a base psicanalítica, a ideia de pensamento, essa coisa que porta o conceito, não é apenas uma abstração racional, mas uma formação simbólica atravessada pelo desejo, pela linguagem e pelo inconsciente.
Ele emerge como produto de uma elaboração secundária — uma tentativa do eu de nomear, estabilizar ou dar sentido a uma cadeia significante que, no fundo, permanece sempre, em alguma medida, ainda opaca.
Um conceito, ademais, não é uma representação estável de uma coisa, mas o efeito de deslocamentos, condensações e cortes que ocorrem entre o inconsciente e a linguagem. Em Lacan, por exemplo, não há conceito sem significante; e todo conceito está inevitavelmente submetido à ordem simbólica — ou seja, à linguagem como estrutura que nos antecede e nos atravessa.
É de uma complexidade tal que tenho certeza que vocês não estão entendendo. É intencional. Então, por desejável, vamos a Graciliano:
“Ouviu o falatório desconexo do bêbedo, caiu numa indecisão dolorosa. Ele também dizia palavras sem sentido, conversava à toa. Mas irou-se com a comparação, deu marradas na parede. Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Estava preso por isso? Como era? Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito? Que mal fazia a brutalidade dele? Vivia trabalhando como um escravo. Desentupia o bebedouro, consertava as cercas, curava os animais — aproveitara um casco de fazenda sem valor. Tudo em ordem, podiam ver. Tinha culpa de ser bruto? Quem tinha culpa?
Se não fosse aquilo... Nem sabia. O fio da ideia cresceu, engrossou — e partiu-se. Difícil pensar. Vivia tão agarrado aos bichos... Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. O demônio daquela história entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos.”
— Cadeia, Vidas Secas, Graciliano Ramos.
O Sujeito Barrado
A experiência que vocês tiveram, acima, lendo a introdução, reverbera o mesmo tipo de experiência que Fabiano, durante o cárcere, imputara-se vivenciar:
“Difícil pensar. [...] O fio da ideia cresceu, engrossou — e partiu-se.”
Aqui o pensamento é descrito como um trabalho interrompido, a despeito de nos acostumarmos a ele como como fluxo contínuo.
Há o esforço de seguir uma linha, de dar forma a uma experiência, mas o fio se parte, o sujeito perde o nexo. Isso ecoa diretamente, me parece, com o que Lacan chamaria de um sujeito barrado, alguém cuja posição na linguagem está fraturada.
O personagem não pensa “bem” porque não fala bem. E não fala bem porque não lhe foi dado o acesso ao símbolo — à escola, à cultura, à linguagem como código partilhado. O pensamento, aqui, em nada natural: uma construção social, relacional, mas que lhe foi negada. É dificultoso para Fabiano entender. E a violência, então, não se realiza tão somente na paulada e nas grades, mas ao ser excluído do simbólico.
“Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito?”
Uma inteligência artificial não demoraria a dizer: “essa pergunta retórica é devastadora”: bom para ela. Está explicitada a injustiça estrutural: o homem é punido, sim, mas não por um ato consciente de maldade; é por não dominar a linguagem, por não saber se explicar. Sua prisão é simbólica — ele está preso no real, no corpo, na ação — enquanto o mundo que o julga opera no plano da palavra, da explicação, da defesa racional. É bruto porque é, antes de mais nada, carente simbolicamente.
É mais engraçado ainda notar que, tendo vivido a vida da seca, e a agrura da condição humana, seja justamente essa violência que se faça sentida. É um paradoxo: a carência da capacidade de articular a própria experiência é justamente a violência que o impede de enxergar todas as outras, que ele sem dúvidas sente, mas não reconhece. Sem surpresas, o título não era uma hipálage.
A Imagem Residual
Podemos abstrair a estrutura do fenômeno presenciado por Fabiano para mais uma outra categoria de sofrimento: dizemos algo, e então há uma interrupção que nos aparta, enquanto sujeitos, do objeto de pensamento. Não nos reconhecemos como emissores, e reagimos ao objeto como se ele fosse um perigo externo. Nossa relação com o pensamento se torna autoimune. E os sintomas passam a ser bem reais: é Fabiano quem ataca-se a si próprio, e Fabiano quem se sente atacado, Fabiano quem reage, Fabiano quem sente, Fabiano quem dói, Fabiano quem se afeta. E, ao final, Fabiano quem tenta entender-se diante daquilo que lhe causara, mas não consegue — não consegue.
O demônio daquela história entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer.
Não é assim conosco? Não é essa a exata forma que a mágoa do ressentimento toma em nós? Criamos cenas fantasiosas em nossas cabeças, conversamos com algum ente querido cuja relação soa conflituosa, e simulamos uma conversa baseada em nossas expectativas: talvez ele ou ela nos chame de inconsequente, e isso nos ofenda até o fundo da alma. É normal sentir raiva quando somos ofendidos. Criamos afetos negativos associados à essa pessoa em particular, e isso modula nossa forma de pensar e sentir para com ela. Em pouco tempo, temos não uma, mas duas pessoas: o outro, e o reflexo do outro em nós, construído a partir de nossas próprias reações. Aquilo que Fabiano faz em relação a si mesmo, e à ideia e símbolo cujo soldado é imagem, nós fazemos com sentimentos.
Nós criamos um outro que subsiste de nossa própria tensão emocional. E deixamos ele nos ferir, conforme engajamos na fantasia.
A Cadeia dentro da Cadeia
Pode passar despercebido ao leitor de primeira viagem que o capítulo “Cadeia” use a metáfora da prisão para expressar não a restrição física das grades, mas prisão do ressentimento. Ele se ergue no mesmo espaço onde respiramos, no quarto silencioso, no ônibus lotado, no instante em que recordamos um gesto, uma palavra mal dita, uma humilhação suportada. Fabiano apanha do soldado e é trancafiado atrás das trancas do cárcere; nós, em contrapartida, apanhamos de lembranças que não cessam de retornar, e nos trancafiamos sozinhos.
“Afinal para que serviam os soldados amarelos? Deu um pontapé na parede, gritou enfurecido. Para que serviam os soldados amarelos? Os outros presos remexeram-se, o carcereiro chegou à grade, e Fabiano acalmou-se:
— Bem, bem. Não há nada não.
Havia muitas coisas. Ele não podia explicá-las, mas havia. Fossem perguntar a seu Tomás da bolandeira, que lia livros e sabia onde tinha as ventas. Seu Tomás da bolandeira contaria aquela história. Ele, Fabiano, um bruto, não contava nada. Só queria voltar para junto de sinhá Vitória, deitar-se na cama de varas. Por que vinham bulir com um homem que só queria descansar? Deviam bulir com outros.
— An!
Estava tudo errado.
— An!
Tinham lá coragem? Imaginou o soldado amarelo atirando-se a um cangaceiro na catinga. Tinha graça. Não dava um caldo.”
— Cadeia, Vidas Secas, Graciliano Ramos.
Sem carcereiro nem algema, temos apenas a cena, repetida e reencenada, e o pensamento transformado em palco de ofensas que não cessam. O soldado de Fabiano o agride, e então Fabiano o mata. Ele renasce para agredir Fabiano, que sofre, apanha, e então em algum momento o mata, o matará — não pode dar descanso à imagem que traz em si, do soldado por ele.
O ressentimento é essa falha de elaboração simbólica: a emoção não encontra via de saída, não se articula em palavra capaz de integrá-la, e por isso retorna incessante. Ele é memória congelada em forma de afeto.
A prisão de Fabiano era feita de ferro e tijolos; a nossa é feita de símbolos emperrados. O fio da ideia — aquele que deveria conduzir à compreensão — se parte, e a emoção não avança. Em vez de síntese, temos repetição; em vez de pensamento, ruminação. Ê, boi, ô, boi. E a violência que sofremos deixa de ser a da mão externa e passa a ser a da própria linguagem voltada contra nós. É, para todos os efeitos, uma cadeia simbólica: há corpo enclausurado um sujeito dividido, reduzido a reviver indefinidamente uma ofensa que não cessa de se atualizar no campo do imaginário.
Deu um pontapé na parede, gritou enfurecido. Para que serviam os soldados amarelos? Os outros presos remexeram-se, o carcereiro chegou à grade, e Fabiano acalmou-se
— Bem, bem. Não há nada não.
Mas, discretamente, Graciliano nos revela uma forma possível de remanejar o sentimento: a prisão simbólica que Fabiano vive — aquela que o aparta do estabelecimento da linguagem e do pensamento — sempre fora construída por uma comunidade. E é essa comunidade que media a construção dos nossos afetos. Ou melhor: seria assim numa comunidade ideal.
Fabiano é barrado no acesso à linguagem; nós somos barrados na capacidade de superá-la e permanecemos cativos de um passado que insiste em não se deixar morrer. Se vocês lerem novamente essas últimas palavras, perceberão que elas também — e muitos de nós as formulamos exatamente desse modo — parecem existir fora do sujeito: o passado reinventado como externo, com vontade própria, e não como nosso.
Panóptico Mental
— Bem, bem. Não há nada não.
Havia muitas coisas. Ele não podia explicá-las, mas havia. Fossem perguntar a seu Tomás da bolandeira, que lia livros e sabia onde tinha as ventas. Seu Tomás da bolandeira contaria aquela história. Ele, Fabiano, um bruto, não contava nada. Só queria voltar para junto de sinhá Vitória, deitar-se na cama de varas. Por que vinham bulir com um homem que só queria descansar? Deviam bulir com outros.
Quem domina o código nomeia, classifica, enquadra; quem não domina, é enquadrado. Palavra enquanto instrumento de poder, que dá ao que domina o código o trânsito da comunicação. O discurso jurídico e policial não descreve, senão para produzir realidade: “culpado”, “subversivo”, “ignorante”. E esse batismo social não precisa de prova, porque a prova é a própria exclusão do sujeito do regime simbólico.
Então temos, neste momento, a desgraça de um sertanejo espancado e preso sem motivo: talvez um episódio que Focault pudesse chamar de disciplina pela linguagem. Marca-se a ausência do código no corpo punido porque é ausente de código. Fabiano não sabe falar. E, não sabendo, já está condenado. A sentença é anterior ao crime.
Lacan, por outro lado, quem sabe, diria: o homem só é homem porque é atravessado pela linguagem. Fora dela, resta o grito, o gesto bruto, e o corpo que apanha. Fabiano, ao não articular palavra, é reduzido ao real da pancada. É punido porque, antes de mais nada, não participar da linguagem, do corpo de símbolos, é a própria punição. Existe enquanto punição. A culpa é não falar e está preso por não simbolizar. Rodeia, como mosca à arandela, aquilo que lhe incinera, é seu mundo, precisa dele, não vive fora dele. Está nele.
E se parece distante, basta lembrar que esse mesmo cárcere simbólico se repete todos os dias, sob outras formas mais discretas. O emigrante que chega ao Japão e se descobre analfabeto em um idioma que não domina — e, por não compreender os códigos, torna-se suspeito, deslocado, quase sempre ridículo aos olhos dos locais. Ou o turista que, sem saber, infringe um mandamento da Sharia em Dubai e é arrastado ao tribunal por um gesto banal, sem sequer compreender o crime que lhe imputam.
O mecanismo é idêntico ao de Fabiano: não é o ato em si que funda a culpa, mas a ignorância dos signos que regem a ordem. O sujeito não erra porque quer, mas porque não fala e, por óbvio, não entende; já não participa da gramática invisível que disciplina o corpo, é uma formiga num mundo de centauros. A exclusão, nesses casos, é ontológica, no sentido pobre de englobar o cultural e o jurídico.
O estrangeiro, como Fabiano, é reduzido ao silêncio, e o silêncio, mais uma vez, é punido como se fosse violência.
A Voz e o Silêncio
Graciliano é um viajante no tempo ao nos mostrar o personagem incapaz de “botar as coisas nos seus lugares”. É válido lembrar que, enquanto escritor, ele foi o nosso primeiro romancista consolidado, e enquanto psicólogo, adiantou e entendeu tendências cem anos antes.
— Por que é que vossemecê bota água em tudo?
Seu Inácio fingiu não ouvir. E Fabiano foi sentar-se na calçada, resolvido a conversar. O vocabulário dele era pequeno, mas em horas de comunicabilidade enriquecia-se com algumas expressões de seu Tomás da bolandeira. Pobre de seu Tomás. Um homem tão direito sumir-se como cambembe, andar por este mundo de trouxa nas costas. Seu Tomás era pessoa de consideração e votava. Quem diria? Nesse ponto um soldado amarelo aproximou-se e bateu familiarmente no ombro de Fabiano:
— Como é, camarada? Vamos jogar um trinta e um lá dentro?
Fabiano atentou na farda com respeito e gaguejou, procurando as palavras de seu Tomás da bolandeira:
— Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme.
Levantou-se e caminhou atrás do amarelo, que era autoridade e mandava. Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia. Atravessaram a bodega, o corredor, desembocaram numa sala onde vários tipos jogavam cartas em cima de uma esteira.
— Desafasta, ordenou o polícia. Aqui tem gente.
Os jogadores apertaram-se, os dois homens sentaram-se, o soldado amarelo pegou o baralho. Mas com tanta infelicidade que em pouco tempo se enrascou. Fabiano encalacrou-se também. Sinha Vitória ia danar-se, e com razão.
— Benfeito.
Ergueu-se furioso, saiu da sala, trombudo.
— Espera aí, paisano, gritou o amarelo.
Fabiano, as orelhas ardendo, não se virou. Foi pedir a seu Inácio os troços que ele havia guardado, vestiu o gibão, passou as correias dos alforjes no ombro, ganhou a rua.
A cada tentativa de enunciar, Fabiano tropeça, ou recorre a expressões de outro homem, de outro código, de outro mundo. Quando fala com o soldado, gagueja:
— Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme.
Sua fala é uma colcha de retalhos, um empréstimo mal ajustado. Ecoa em si uma tentativa de voz própria. Não é suficiente para fundar autoridade. O soldado (este sim, real e simbolicamente amparado em autoridade) trata a todos como massa obediente e corpo disponível. Fabiano sempre havia obedecido. Sua palavra não lhe confere poder algum: é tolerada, no máximo. Entre o silêncio e a fala sem peso, sua condição é a mesma: exclusão, sempre a exclusão.
Fabiano encalacrou-se também. Sinha Vitória ia danar-se, e com razão.
— Benfeito.
Ergueu-se furioso, saiu da sala, trombudo.
— Espera aí, paisano, gritou o amarelo.
Fabiano, as orelhas ardendo, não se virou. Foi pedir a seu Inácio os troços que ele havia guardado, vestiu o gibão, passou as correias dos alforjes no ombro, ganhou a rua.
Múltiplos apartes já deram conta do mesmo fenômeno: se seguirmos Barthes, toda fala é também um ato de poder: quem fala delimita o campo do dizível; quem cala é relegado ao não-ser da cena social.
— Benfeito.
Já em Bakhtin, o mundo se organiza como polifonia, múltiplas vozes em tensão; mas nem todas são escutadas, nem todas entram no concerto simbólico. Há sempre vozes dominantes e vozes subalternas.
— Espera aí, paisano, gritou o amarelo.
Na leitura foucaultiana, por outro lado, isso se torna ainda mais nítido: não existe discurso inocente. A linguagem é um dispositivo de controle, pena se crermos nela como meio neutro. O tribunal que julga Fabiano, de algum modo, não apenas lhe nega a escuta, nem simplesmente lhe imputa o silêncio, mas lhe forclui a linguagem que não seja a sua própria. A ambiguidade aqui é proposital.
Fabiano, as orelhas ardendo, não se virou. Foi pedir a seu Inácio os troços que ele havia guardado, vestiu o gibão, passou as correias dos alforjes no ombro, ganhou a rua.
O escalar dessa cena, de todo modo, desemboca no seu ápice quando esse mesmo Fabiano xinga a mãe do soldado. No momento máximo de equiparação — um homem ofendendo outro homem —, as autoridades vestidas e outorgadas caem. O soldado se torna homem, e Fabiano se torna homem. Mas, no segundo seguinte, o soldado volta a ser soldado de batalhão, com voz de prisão, e Fabiano é despido da sua realidade de homem, retornando a ser preso em si mesmo, no código que não conhece e não possui.
O corpo como último recurso de expressão
Voltamos ao momento:
Fabiano também não sabia falar. Às vezes largava nomes arrevesados, por embromação. Via perfeitamente que tudo era besteira. Não podia arrumar o que tinha no interior. Se pudesse... Ah! Se pudesse, atacaria os soldados amarelos que espancam as criaturas inofensivas.
Bateu na cabeça, apertou-a. Que faziam aqueles sujeitos acocorados em torno do fogo? Que dizia aquele bêbedo que se esgoelava como um doido, gastando fôlego à toa? Sentiu vontade de gritar, de anunciar muito alto que eles não prestavam para nada. Ouviu uma voz fina. Alguém no xadrez das mulheres chorava e arrenegava as pulgas. Rapariga da vida, certamente, de porta aberta. Essa também não prestava para nada. Fabiano queria berrar para a cidade inteira, afirmar ao doutor juiz de direito, ao delegado, a seu vigário e aos cobradores da prefeitura que ali dentro ninguém prestava para nada. Ele, os homens acocorados, o bêbedo, a mulher das pulgas, tudo era uma lástima, só servia para aguentar facão. Era o que ele queria dizer.
Quando a linguagem lhe é interditada, resta a Fabiano apenas o corpo.
É ele que avança contra a parede, num gesto bruto e desesperado, que tenta substituir a palavra que não vem. É ele que bate-se contra si.
Bateu na cabeça, apertou-a
Aqui, podemos ler em chave fenomenológica: Merleau-Ponty lembraria que o corpo é sempre já linguagem, é expressão antes do conceito. Mas nesse caso, a expressão corporal não é plena, pois, mutilada do gesto que deveria significar plenamente, explode.
Que dizia aquele bêbedo que se esgoelava como um doido, gastando fôlego à toa? Sentiu vontade de gritar, de anunciar muito alto que eles não prestavam para nada
Descarga, violência mínima, linguagem reduzida ao grito, marradas e bulir. Em Lacan, poderíamos dizer que, barrado no simbólico, Fabiano cai no real, o corpo que dói, que reage, que se abate contra si, vive animal, pensa animal, anima-se animal. O pontapé é significante precário, resto de linguagem onde o sujeito não encontra mais amparo. O corpo, então, aparece como último recurso de inscrição.
Ouviu uma voz fina. Alguém no xadrez das mulheres chorava e arrenegava as pulgas. Rapariga da vida, certamente, de porta aberta. Essa também não prestava para nada.
Se o sujeito não pode ser ouvido, ele precisa ser visto. Se não pode falar, precisa marcar sua presença com o choque. Fabiano se faz existir pelo impacto físico. Existência precária que não funda diálogo, porque nem reconhecimento algum leva a nenhuma catarse maior.
Fabiano queria berrar para a cidade inteira, afirmar ao doutor juiz de direito, ao delegado, a seu vigário e aos cobradores da prefeitura que ali dentro ninguém prestava para nada.
Desesperança e nunca os meios de sequer realizá-la.
Ele, os homens acocorados, o bêbedo, a mulher das pulgas, tudo era uma lástima, só servia para aguentar facão. Era o que ele queria dizer.
Era o que ele queria dizer.
Referências
BAKHTIN, Mikhail. A obra de Dostoiévski: problemas de método e de estilo. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 1990.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.
JUNG, C. G. Aspectos psicológicos da persona. In: A estrutura e dinâmica da psique. Rio de Janeiro: Vozes, 1995.
LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.
FREUD, Sigmund. O eu e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1987.
E, claro: uma palestra muito boa de Rafael Falcón, que eu não achei mais, mas colocarei aqui assim que a vir. Sei que está em algum canto do youtube.
Brian.



