A Lendária Técnica do Diário de Impressões
Como um exercício tão simples pode melhorar por até 300% nossa capacidade de pensar poeticamente?
Quando li, pela primeira vez, um anúncio que prometia: “este curso pode ajudá-lo a conseguir até quarenta mil reais em vendas”, fiquei extasiado. Como ninguém percebia que a proposta, tal como formulada, não significava absolutamente nada? “Até quarenta mil” abrange, com igual legitimidade, o intervalo que vai de zero a quarenta mil. O que ultrapassa esse limite, claro, já pertence ao domínio do lucro, do milagre e do storytelling. Pensei, então: um dia ainda usarei esse artifício. Questionável, sim, mas de um canalhice charmosa…
O dia é hoje. A diferença, contudo, é que a proposta, desta vez, calha — realmente — em melhorar de modo substancial a sua capacidade técnica de memorização e de pensamento poético.
Sente-se, respire, pegue um café, eu vou te ensinar como:
Técnicas avançadas para enxergar o mundo como ele é
Tenho o costume de andar bastante e não tenho carteira de carro. Tirarei a carteira de aviação privada antes da CNH, nesse ritmo. Esquisitices de artista. Por andar bastante, costumo conhecer todas as cidades que passo quase que inteiras já na primeira semana.
Quando andamos por uma cidade brasileira, notamos duas coisas: os bairros mais ricos andam lado a lado com os bairros mais pobres, e quanto maior for a riqueza de uma cidade, mais se concentrará no eixo rodoviário que leva às capitais. Em sentido inverso, os moradores de rua, a pobreza, se concentrará no sentido contrário. Chamo este modelo de pena de pavão. Assim:
Cada cidade é um nó do colorido da pena, e a haste é a rodovia, o pavão é o grande centro capital. Parece o mapa do estado de São Paulo. O circulo colorido da pena forma um desenho de gota em que a parte mais colorida aponta para a ave e o resto ao redor vai desaparecendo para cima.
Este modo de pensar é iminentemente poético. Se eu fosse elaborar de forma acadêmica ou técnica, diria o seguinte:
“A justaposição entre bairros ricos e pobres, característica marcante das cidades brasileiras, corresponde a um padrão de segregação socioespacial não-zonificada, delimitada por fronteiras simbólicas, arquitetônicas e institucionais. Diferentemente do modelo anglo-saxão de suburbanização da riqueza, o espaço urbano brasileiro se organiza por enclaves de alto valor cercados por pobreza estrutural, produzindo uma cidade fragmentada, porém fisicamente contígua — fenômeno amplamente analisado por autores como Milton Santos, Raquel Rolnik e Teresa Caldeira.
A concentração da riqueza ao longo dos eixos rodoviários que conectam cidades às capitais funciona como vetor de valorização fundiária e de organização do território, pois concentram fluxos de capital, trabalho e serviços de alto valor agregado. Trata-se de um exemplo claro do que Milton Santos denominou uso corporativo do território, no qual a infraestrutura de circulação estrutura a cidade segundo as necessidades do capital, e não da vida cotidiana. Em sentido inverso, a pobreza, a população em situação de rua e os territórios precarizados tendem a ser deslocados para fora desses eixos, como resultado de processos de expulsão territorial, periferização e gestão espacial da marginalidade.”
E, a despeito de possuir margem de estudo para seu mestrado ou doutorado, caro leitor, colocaria o brasileiro médio para dormir nos primeiros parágrafos. É, apesar da importância científica e intelectual, matéria morta em termos de estética. Para nós é a morte da poesia.
O eixo de experiência que faz sair de um lado o poeta e de outro o geógrafo é o mesmo: ambos observam a cidade. Um o faz de acordo com o aparato teórico de sua área de estudo, o outro o faz com olhos e analogias logomelofanopéicas.
É basicamente essa a diferença entre o poeta e o restante da humanidade.
Técnicas avançadas para registrar o mundo que se vê, melhor do que ele teria sido
Existe uma distância eterna e infinita entre as seguintes formas de se definir ou retratar, por exemplo, uma mulher:
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