A Arte do Verso

A Arte do Verso

A Ética de trabalho do artista

E a necessidade de entender que a ética precede o talento

Avatar de Brian Belancieri
Brian Belancieri
dez 31, 2025
∙ Pago

Introdução

Vocês não sentem pânico quando veem uma ilustração antiga, daquelas lá de 1800, que mostram as pessoas todas com uma fleuma que chega a dar medo? Nas aulas de história, lá pelo ensino médio, nos diziam que havia uma separação entre o trabalho e a intelectualidade. Uns para o ócio, outros para o esforço. Essa separação entre o corpo e o cérebro colocava uns para trabalharem e outros para pensar o trabalho. Poetas, filósofos e administradores para um lado, encanadores, pedreiros e jardineiros para outro.

A sociedade que zomba da excelência em consertar encanamentos, porque é uma atividade humilde, e tolera o desleixo na poesia, por ser uma atividade valorizada, não terá nem bons encanamentos nem bons poemas. Tanto seus canos quanto sua lírica não conterão coisa alguma.

— Paráfrase da famosa frase de John W. Gardner

Mas, com o tempo, torna-se evidente que as obras que atravessam gerações não são fruto de lampejos ocasionais, e sim de uma ética de trabalho que permeava integralmente o fazer de seus autores. Estes grandes artistas se colocavam como causa e como critério daquilo que produziam. Seu modo de viver se traduzia num controle rigoroso dos meios e dos processos. A obsessão pelo trabalho, longe de ser um desvio patológico, era a condição preliminar para a formação de uma ética — quando sustentada, quando organizada, quando submetida a método. Não havia um cérebro de um lado e uma mão conduzindo do outro. As duas coisas são sempre a mesma.

É essa forma de existir em relação ao trabalho que quero trazer pra vocês. E é a forma de entender a construção deste jeito de existir que quero discutir com vocês hoje.

“Penso que certos tipos de processos não admitem qualquer variação. Se você precisa fazer parte desse processo, tudo o que pode fazer é transformar — ou talvez distorcer — a si mesmo por meio dessa repetição persistente e fazer desse processo uma parte da sua própria personalidade.”
— Haruki Murakami, What I Talk About When I Talk About Running

Vocês já assistiram There Willl Be Blood, correto? Lembram-se deste personagem?

A força-da-natureza se fosse uma pessoa

Daniel Plainview é a figura do homem reduzido ao eixo da vontade. Para além dessa baboseira romântica que estamos acostumados, vemos o vigor mais primal: tudo nele converge para fazer, extrair, vencer.

Podemos assistir e reassistir a este que é um dos maiores filmes de todos os tempos e acabar nos enganando quanto ao tema do filme e à vida do personagem. Veremos, superficialmente, ganância (que só é ganância se não estivermos dispostos a colocar trabalho para sustentar o que se deseja) e, se nos afastarmos um pouco mais, a simbolização do capitalismo selvagem. Mas, ao nos determos com mais cuidado, conseguimos perceber que Daniel Plainview não é movido pelo dinheiro como um fim, mas pelo domínio. Extrair petróleo (ou prata, pois é numa mina que ele começa) é apenas o meio através do qual sua ética se organiza.

Plainview encarna uma forma extrema de responsabilidade autoimputada: o sentido do que faz prescinde de validação, de reconhecimento, de quaisquer desses elementos dos quais estamos tão carentes hoje em dia. Por isso odeia Eli Sunday: Eli representa a linguagem, o ritual, o teatro moral. Daniel representa o chão, a perfuração, o risco físico direto.

Para nosso objetivo aqui, passaremos ao redor dos elementos psicológicos que são catastróficos nesse personagem. Afinal, nosso propósito não é uma análise da bondade ou da maldade humana, mas aquilo que podemos retirar, desse exemplo, como sabedoria para nossa própria ética — enquanto poetas, no particular, e artistas, no geral.

(Mas, claro, não custa dizer: a disciplina de Plainview é desprovida de freios relacionais. Ele suporta a dor, o isolamento, o silêncio, e paga por isso com a corrosão completa do laço humano. No limite da análise, There Will Be Blood não mostra o triunfo do trabalho, mas o que acontece quando a ética se torna autodestrutiva.)

O que há nele que deveria haver em nós, artistas e poetas?

Eu te respondo:

Continue a ler com uma experiência gratuita de 7 dias

Subscreva a A Arte do Verso para continuar a ler este post e obtenha 7 dias de acesso gratuito ao arquivo completo de posts.

Já é um subscritor com subscrição paga? Entrar
© 2026 A Arte do Verso · Privacidade ∙ Termos ∙ Aviso de cobrança
Comece o seu SubstackObtenha o App
Substack é o lar da grande cultura