A Ética de trabalho do artista
E a necessidade de entender que a ética precede o talento
Introdução
Vocês não sentem pânico quando veem uma ilustração antiga, daquelas lá de 1800, que mostram as pessoas todas com uma fleuma que chega a dar medo? Nas aulas de história, lá pelo ensino médio, nos diziam que havia uma separação entre o trabalho e a intelectualidade. Uns para o ócio, outros para o esforço. Essa separação entre o corpo e o cérebro colocava uns para trabalharem e outros para pensar o trabalho. Poetas, filósofos e administradores para um lado, encanadores, pedreiros e jardineiros para outro.
A sociedade que zomba da excelência em consertar encanamentos, porque é uma atividade humilde, e tolera o desleixo na poesia, por ser uma atividade valorizada, não terá nem bons encanamentos nem bons poemas. Tanto seus canos quanto sua lírica não conterão coisa alguma.
— Paráfrase da famosa frase de John W. Gardner
Mas, com o tempo, torna-se evidente que as obras que atravessam gerações não são fruto de lampejos ocasionais, e sim de uma ética de trabalho que permeava integralmente o fazer de seus autores. Estes grandes artistas se colocavam como causa e como critério daquilo que produziam. Seu modo de viver se traduzia num controle rigoroso dos meios e dos processos. A obsessão pelo trabalho, longe de ser um desvio patológico, era a condição preliminar para a formação de uma ética — quando sustentada, quando organizada, quando submetida a método. Não havia um cérebro de um lado e uma mão conduzindo do outro. As duas coisas são sempre a mesma.
É essa forma de existir em relação ao trabalho que quero trazer pra vocês. E é a forma de entender a construção deste jeito de existir que quero discutir com vocês hoje.
“Penso que certos tipos de processos não admitem qualquer variação. Se você precisa fazer parte desse processo, tudo o que pode fazer é transformar — ou talvez distorcer — a si mesmo por meio dessa repetição persistente e fazer desse processo uma parte da sua própria personalidade.”
— Haruki Murakami, What I Talk About When I Talk About Running
Vocês já assistiram There Willl Be Blood, correto? Lembram-se deste personagem?
Daniel Plainview é a figura do homem reduzido ao eixo da vontade. Para além dessa baboseira romântica que estamos acostumados, vemos o vigor mais primal: tudo nele converge para fazer, extrair, vencer.
Podemos assistir e reassistir a este que é um dos maiores filmes de todos os tempos e acabar nos enganando quanto ao tema do filme e à vida do personagem. Veremos, superficialmente, ganância (que só é ganância se não estivermos dispostos a colocar trabalho para sustentar o que se deseja) e, se nos afastarmos um pouco mais, a simbolização do capitalismo selvagem. Mas, ao nos determos com mais cuidado, conseguimos perceber que Daniel Plainview não é movido pelo dinheiro como um fim, mas pelo domínio. Extrair petróleo (ou prata, pois é numa mina que ele começa) é apenas o meio através do qual sua ética se organiza.
Plainview encarna uma forma extrema de responsabilidade autoimputada: o sentido do que faz prescinde de validação, de reconhecimento, de quaisquer desses elementos dos quais estamos tão carentes hoje em dia. Por isso odeia Eli Sunday: Eli representa a linguagem, o ritual, o teatro moral. Daniel representa o chão, a perfuração, o risco físico direto.
Para nosso objetivo aqui, passaremos ao redor dos elementos psicológicos que são catastróficos nesse personagem. Afinal, nosso propósito não é uma análise da bondade ou da maldade humana, mas aquilo que podemos retirar, desse exemplo, como sabedoria para nossa própria ética — enquanto poetas, no particular, e artistas, no geral.
(Mas, claro, não custa dizer: a disciplina de Plainview é desprovida de freios relacionais. Ele suporta a dor, o isolamento, o silêncio, e paga por isso com a corrosão completa do laço humano. No limite da análise, There Will Be Blood não mostra o triunfo do trabalho, mas o que acontece quando a ética se torna autodestrutiva.)
O que há nele que deveria haver em nós, artistas e poetas?
Eu te respondo:
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