A coisa mais importante que você precisa saber sobre métrica e nunca ninguém te disse...
Por que algumas habilidades impressionam à primeira vista, mas empobrecem tudo o que tocam?
Deixe-me contar uma boa história.
Nos meus anos como músico, quando frequentava o Conservatório de Tatuí, no estado de São Paulo, meus professores comentavam constantemente sobre o quanto as pessoas leigas encaravam aqueles que possuíam ouvido absoluto como se fossem gênios ou superdotados — e o quanto, na realidade, uma pessoa com ouvido absoluto performava da mesma forma que as outras, ou até pior. O argumento era que nascer com um “afinador” dentro de si só tinha serventia dentro de um espectro muito limitado de possibilidades: um relógio preciso, afinal de contas, só mede o tempo.
Em algum momento, passei a conviver com pessoas de ouvido absoluto e confirmei que a música que faziam, apesar de sublime, tinha algo de artificial ou mecânico. Talvez porque a forma como percebiam o som fosse diferente, apelassem mais para aquilo que traziam de natural e não explorassem tanto outras possibilidades, como timbre, nuances e dinâmicas. Era, ao que me parecia, outra linguagem. Uma linguagem que, experiente em uma área, se fechasse aos inúmeros defeitinhos que a beleza pode trazer em si.
Na verdade, hoje sei, é uma habilidade que não vale de nada sem uma tradição e cultura ao redor dela que a molde para fazer, vejam vocês, arte.
Eu sempre tive bom ouvido relativo, e acredito que essa condição me trouxe uma forma muito mais aberta e abrangente de entender o som. Convivendo com pessoas de ouvido absoluto, parei de me sentir menos por não ter um bom ouvido perfeitamente “afinado”.
O ouvido absoluto percebe a nota como um dado fixo, quase da mesma forma como reconhecemos uma cor pelo nome sem precisar compará-la a nenhuma outra, enquanto o ouvido relativo opera por relações, exigindo sempre um ponto de apoio a partir do qual as alturas ganham sentido. No primeiro caso, a música é captada como um conjunto de identidades sonoras isoladas e imediatamente nomeáveis; no segundo, como um campo de tensões, distâncias e direções, no qual cada som só se define plenamente em função do que veio antes e do que vem depois.
Quando entendi que o ouvido absoluto tende a ser uma habilidade perceptiva fechada em si mesma, rara e pouco treinável, também entendi que o ouvido relativo é um instrumento nascido da leitura musical, algo desenvolvido com a prática e profundamente ligado à compreensão de intervalos, harmonias e movimentos melódicos. É pleno e vasto em sua imperfeição. Custa adquirir.
Enquanto o primeiro oferece precisão instantânea, o segundo oferece entendimento estrutural, e é justamente esse entendimento que sustenta a escuta musical madura, a composição e a interpretação consciente. É o tipo de ouvido que a maioria dos grandes compositores da história possuía (devo adiantar: ter ouvido relativo também não te transforma em um grande compositor — estudar para ser um, por outro lado, te ajuda a forma o ouvido relativo). O ouvido absoluto parece ser mais presente em certos tipos de músicos, sendo bastante comum no jazz, inclusive, depois que devidamente estudados.
E nada disso parece ter algo a ver com a métrica — você deve estar se perguntando —, mas, na verdade, estou falando da mesmíssima coisa: as nossas capacidades auditivas, frequentemente ignoradas em prol do que diz o manual.
Vejam vocês: o leigo, o leitor que anda por aí ciscando terras conservadoras, tradicionais ou latinistas, acaba adquirindo um pacote de cacoetes e maneirismos em relação às propriedades das matérias que anda estudando, de tal forma caricatas que chegam a ser um pouco constrangedoras. Uma dessas coisas, dentro da poesia, é a ideia de metrificação.
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